Hormônios e Regulação

SOP: o que o exame enxerga antes do ultrassom

Na SOP, o ultrassom não é obrigatório para o diagnóstico e a raiz costuma ser a resistência à insulina. O que os exames bioquímicos mostram antes.

Mulher jovem sentada à mesa de um consultório claro, com laudos de exame à frente, em atitude atenta
Ouça: o que os exames mostram na SOP antes do ultrassom
3:00

O caminho até o diagnóstico costuma começar por uma imagem. A mulher procura atendimento porque o ciclo menstrual ficou irregular, porque a acne não responde ao tratamento de pele ou porque apareceram pelos onde antes não havia. Um ultrassom é solicitado, o laudo descreve ovários com múltiplos folículos pequenos, e o nome da síndrome entra na conversa por ali. Daí em diante o cuidado tende a se organizar em torno do que está visível, a pele e a menstruação, como se a síndrome dos ovários policísticos fosse um problema de ovário e de aparência.

Acontece que a parte do quadro que mais pesa no futuro daquela mulher raramente aparece no ultrassom. Ela aparece nos exames bioquímicos, e costuma estar lá antes. A resistência à insulina, o mecanismo em que as células respondem menos ao hormônio e o pâncreas precisa fabricar mais insulina para manter a glicose em níveis normais, é o eixo em torno do qual o restante se organiza. Cuidar apenas do excesso de androgênio, que é a parte que se vê no espelho, deixa intacto o que sustenta o ciclo por baixo. É o raciocínio descrito em resistência à insulina antes da glicemia subir, aplicado à condição em que ele se apresenta de forma mais completa.

O que o critério de Rotterdam realmente exige

O diagnóstico não depende do ultrassom, e essa é a primeira surpresa para quem foi diagnosticada por ele. O critério de Rotterdam, o mais usado, pede dois de três achados, o hiperandrogenismo (excesso de hormônios androgênicos, no exame clínico ou no laboratório), a oligo-ovulação ou anovulação (a ovulação que falha ou não acontece, o que se traduz em ciclos irregulares ou ausentes) e os ovários policísticos na imagem (Siddiqui e cols., 2022). Dois de três significa que hiperandrogenismo com ciclo irregular fecha o critério sem nenhuma imagem, e que ovários com muitos folículos, isoladamente, não fecham coisa alguma.

Essa aritmética tem duas consequências práticas. Um ultrassom alterado em uma mulher com ciclos regulares e sem sinais de hiperandrogenismo não autoriza o diagnóstico, porque folículos numerosos aparecem também em ovários saudáveis, sobretudo em mulheres jovens. E um ultrassom normal não afasta a síndrome, de modo que a paciente que ouve que os seus ovários estão bons pode sair com a impressão errada de que o assunto está encerrado. O critério também só se fecha depois de afastadas outras causas do mesmo quadro, entre elas as alterações da tireoide, a elevação de prolactina e as formas não clássicas de hiperplasia adrenal congênita. Quem faz essa leitura é o médico, e não o laudo isolado.

O que a paciente vê e o que está abaixo da linha d’água

A imagem mais útil para entender a síndrome é a de um iceberg. Acima da linha d’água fica o que a mulher percebe e a leva ao consultório, a acne persistente, o hirsutismo (aumento de pelos em áreas de padrão masculino), a alopecia androgenética (a queda de cabelo no topo da cabeça, com padrão hormonal), a irregularidade menstrual e a dificuldade de engravidar. É a parte que incomoda todo dia, e costuma dominar a consulta.

Abaixo da linha d’água fica o que o médico precisa procurar, mesmo quando a paciente não reclama disso. Ali estão a resistência à insulina, a intolerância à glicose, a doença hepática gordurosa (o acúmulo de gordura no fígado), o diabetes tipo 2, as alterações do perfil de gorduras no sangue, o aumento do risco cardiovascular, os quadros de ansiedade e depressão e o espessamento do endométrio. Nada disso aparece no espelho nem no ultrassom dos ovários. Tudo aparece, em algum grau, em exames bioquímicos.

Infográfico do iceberg da SOP, com os sinais visíveis acima da linha d'água e as alterações metabólicas abaixo
O que a paciente enxerga e o que o exame procura ocupam níveis diferentes do mesmo quadro. A parte submersa não aparece no espelho nem no ultrassom dos ovários.

O ciclo que se retroalimenta em todas as direções

O que amarra as duas metades do iceberg é um circuito, e nele nenhuma seta aponta em um sentido só. A resistência à insulina leva à hiperinsulinemia compensatória (o excesso de insulina que o pâncreas produz para vencer a resistência), essa insulina aumenta a produção de androgênios, o hiperandrogenismo alimenta a inflamação crônica de baixo grau, a inflamação se associa ao desequilíbrio da microbiota intestinal, e esse desequilíbrio piora a resistência à insulina, de volta ao ponto de partida.

O trecho que vai da insulina ao androgênio é o mais concreto. A insulina em excesso age em pelo menos três lugares ao mesmo tempo, estimula a hipófise a liberar mais LH, que atua nas células da teca do ovário produzindo androgênio, age diretamente nos receptores de insulina dessas mesmas células e ainda estimula a suprarrenal. Em paralelo, ela reduz a SHBG, a proteína que transporta os hormônios sexuais no sangue e os mantém indisponíveis, e com menos transportador sobra mais testosterona livre, que é a fração biologicamente ativa. Por isso uma paciente pode ter testosterona total dentro da faixa e ainda assim apresentar sinais claros de hiperandrogenismo.

A revisão de Siddiqui e cols. descreve o mesmo circuito percorrido no sentido inverso, e é por isso que ele é bidirecional. O hiperandrogenismo contribui para a resistência à insulina e para a hiperglicemia, que aumentam a produção de espécies reativas de oxigênio e o estresse oxidativo, favorecem a adiposidade abdominal e, por essa via, elevam de novo a inflamação, a resistência à insulina e o próprio excesso de androgênio (Siddiqui e cols., 2022). O circuito não tem começo, tem pontos de entrada, e é isso que explica por que uma abordagem dirigida a um único vértice tende a produzir resultado parcial.

Infográfico do ciclo bidirecional entre resistência à insulina, hiperandrogenismo, inflamação e disbiose
O circuito não tem começo, tem pontos de entrada. É por isso que uma abordagem dirigida a um único vértice tende a produzir resultado parcial.

A inflamação de baixo grau e o intestino fecham a volta

A inflamação crônica de baixo grau faz parte do quadro, e não é um acompanhante ocasional dele (Siddiqui e cols., 2022). É o tipo de processo que não produz dor nem febre, permanece ativo por anos e só aparece quando se procura por ele, o mesmo mecanismo descrito em inflamação crônica. A gordura abdominal em excesso libera mediadores que reduzem a resposta dos tecidos à insulina, e o próprio excesso de insulina sustenta esse estado.

O intestino entra na conta pela mesma mão dupla. O desequilíbrio da microbiota, tema tratado em disbiose intestinal, acompanha a resistência à insulina, e a relação já foi demonstrada nas duas direções. O intestino é uma das voltas do mesmo circuito, e não um capítulo à parte.

O que os exames bioquímicos enxergam antes do ultrassom

Se o circuito é metabólico, os sinais mais precoces são bioquímicos. A dupla de glicemia e insulina de jejum, com os índices calculados a partir delas, é o primeiro plano, e o que vale para a resistência à insulina em geral vale aqui com mais força, a glicemia é um marcador tardio, porque só se altera quando a compensação do pâncreas começa a falhar. A insulina informa mais cedo do que a glicose, e um resultado dentro da faixa de referência não encerra a investigação, ponto discutido em valor de referência não é valor ótimo.

Do lado hormonal, a SHBG baixa costuma ser um dos sinais mais consistentes, porque reflete ao mesmo tempo o excesso de insulina e o aumento da fração livre de testosterona. A relação entre LH e FSH desproporcional, com o LH acima do FSH, é outro achado clássico. Somam-se a esses o perfil de gorduras no sangue, os marcadores de função hepática e os de inflamação. Nenhum deles isolado define coisa alguma. O que produz sentido é o conjunto, lido junto com a história menstrual e o exame clínico, e essa leitura é do médico.

Existe ainda uma camada mais fina, a leitura metabolômica. Ela descreve a sobrecarga metabólica pelo lado dos metabólitos, e ajuda a entender por qual via ela está acontecendo. Um detalhe muda a forma de investigar, a resistência à insulina não é exclusiva de quem tem sobrepeso. Uma proporção alta de mulheres magras com a síndrome também a apresenta, e a balança normal não é motivo para deixar a avaliação metabólica de fora.

A etiologia continua não esclarecida, e isso muda a leitura

Os autores da revisão são explícitos quanto ao limite do que se sabe. A causa da síndrome permanece não esclarecida, com fatores genéticos e ambientais envolvidos e a interação entre eles ainda em investigação (Siddiqui e cols., 2022). O que existe é um circuito bem descrito, com mecanismos coerentes entre si, sem um ponto de partida único identificado. Isso muda a pergunta da consulta, que deixa de ser qual é a causa e passa a ser onde o circuito está mais sobrecarregado.

Os números de frequência carregam a mesma incerteza. A revisão fala em 6 a 20% das mulheres em idade reprodutiva, com sintomas que podem começar já na puberdade, e levantamentos com critérios mais amplos chegam a estimativas maiores. Essa variação vem do critério adotado e da população estudada. Outras duas estimativas circulam com frequência e pedem a mesma ressalva, a de que cerca de metade das mulheres com a síndrome não sabe que a tem, e a de que uma parcela expressiva delas desenvolve diabetes tipo 2 antes dos quarenta anos. São ordens de grandeza, não valores fechados.

Por que a insulina entra no tratamento de uma síndrome do ovário

O que a leitura metabólica acrescenta à síndrome dos ovários policísticos não é um exame novo, é uma mudança de foco. O hiperandrogenismo é o vértice visível, e melhorar a acne, o excesso de pelos e a regularidade do ciclo tem valor real para quem convive com essas queixas. O problema é que, quando o cuidado se limita a esse vértice, os outros continuam girando, e são eles que respondem pela intolerância à glicose, pela gordura no fígado e pelo risco cardiovascular que se acumula ao longo de décadas.

Essa conta segue depois que a fase reprodutiva termina, porque o componente metabólico não desaparece com a queda dos hormônios ovarianos, tema que se cruza com menopausa e perimenopausa. Enxergar a síndrome como um circuito, e não como um diagnóstico de imagem, é o que permite ao médico decidir por onde começar e o que acompanhar ao longo do tempo. O ultrassom mostra um dos três critérios. Os exames bioquímicos mostram o mecanismo, e mostram antes.

Referência do estudo de revisão sobre etiologia, genética e imunologia da síndrome dos ovários policísticos, com título, autores, revista e DOI

Revisão descreve o circuito que liga hiperandrogenismo, resistência à insulina, estresse oxidativo e inflamação, e registra que a causa da síndrome ainda não está esclarecida.

Perguntas frequentes

O que é síndrome dos ovários policísticos?

É um transtorno endócrino comum em mulheres em idade reprodutiva, marcado pela combinação de excesso de hormônios androgênicos, ovulação irregular ou ausente e, em parte dos casos, ovários com muitos folículos pequenos no ultrassom. Apesar do nome, ela não é uma doença apenas do ovário. Na maioria das mulheres existe também um componente metabólico importante, com resistência à insulina e inflamação crônica de baixo grau.

SOP precisa de ultrassom para o diagnóstico?

Não necessariamente. O critério de Rotterdam exige dois de três achados, hiperandrogenismo, ovulação irregular ou ausente e ovários policísticos na imagem. Uma mulher que tem os dois primeiros fecha o critério sem depender do ultrassom. O inverso também vale, ovários com muitos folículos, sozinhos, não fecham diagnóstico. A conclusão é sempre médica, depois de afastar outras causas que produzem quadro parecido.

Quais são os sintomas da SOP?

Os mais visíveis são ciclos menstruais irregulares ou ausentes, acne persistente, aumento de pelos em áreas de padrão masculino, queda de cabelo no topo da cabeça e dificuldade para engravidar. Junto deles costumam aparecer sinais metabólicos menos evidentes, como ganho de gordura abdominal, cansaço após as refeições e dificuldade de perder peso. Os sintomas variam muito de uma mulher para outra e podem começar já na adolescência.

Mulher magra pode ter SOP?

Pode. A síndrome é frequentemente associada ao sobrepeso, mas ela também ocorre em mulheres com peso dentro da faixa esperada, e uma proporção alta delas apresenta resistência à insulina mesmo assim. Por isso a avaliação metabólica não é reservada apenas a quem tem excesso de peso. O peso normal na balança não descarta o desequilíbrio que sustenta o quadro.

Quais exames ajudam a investigar a SOP?

A avaliação costuma reunir dosagens hormonais, como testosterona total e livre, SHBG, LH e FSH, junto com exames que afastam outras causas, entre eles TSH, prolactina e 17-alfa-hidroxiprogesterona. Do lado metabólico entram glicemia, insulina, perfil lipídico, marcadores de função hepática e de inflamação. Qual conjunto faz sentido em cada caso, e como ler o resultado, é decisão do médico dentro da história completa.

Metabolômica na prática clínica

Veja como funciona a consulta de nutrologia guiada por metabolômica com o Dr. Renato Susin, médico nutrólogo.

Agendar consulta

Referências científicas

  1. Siddiqui S, Mateen S, Ahmad R, Moin S. A brief insight into the etiology, genetics, and immunology of polycystic ovarian syndrome (PCOS). J Assist Reprod Genet, 2022. PMID 36190593 · DOI
Dr. Renato Susin
Dr. Renato Susin
Médico nutrólogo
CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473

Médico nutrólogo com foco em metabolômica clínica e medicina funcional integrativa. Escreve traduzindo evidência em raciocínio de consultório.

Conteúdo educativo e informativo, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Não substitui consulta, diagnóstico, prescrição nem tratamento médico individual. A metabolômica é apresentada como exame complementar, que soma aos exames convencionais. Dr. Renato Susin, médico nutrólogo. CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473.