Hormônios e Regulação

Menopausa e perimenopausa: além do exame hormonal

Na menopausa, o exame hormonal mostra o nível de estrogênio, mas não o caminho. Entenda o estroboloma, os metabólitos de estrogênio e a névoa mental da fase.

Retrato sóbrio e natural de uma mulher madura em um ambiente claro e sereno, transmitindo dignidade e serenidade na transição da menopausa
Ouça: o que os metabólitos mostram na menopausa
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A transição para a menopausa costuma começar antes do que a maioria imagina, e quase nunca de forma clara. O sono muda, o humor oscila, aparece um cansaço diferente e uma sensação de raciocínio mais lento. Muitas mulheres fazem um exame hormonal, veem o estradiol e outros valores, e saem com a impressão de que aquilo explica pouco do que estão sentindo. Em parte, explica mesmo pouco.

O motivo é simples. Um exame hormonal comum mostra o nível do estrogênio em um momento, uma fotografia. A queda do estrogênio, porém, muda o funcionamento de várias vias do metabolismo ao mesmo tempo, e é justamente esse funcionamento que a metabolômica consegue ler. Este texto é sobre o que os metabólitos mostram nessa fase, e por que eles enxergam coisas que a dosagem sozinha não mostra.

A transição tem fases, e ela começa antes do esperado

Antes de falar de metabólitos, vale organizar o mapa. A transição não é um evento único, ela tem três fases, e confundir isso atrapalha a leitura de qualquer exame.

A primeira é a perimenopausa, a fase de transição propriamente dita. Aqui os hormônios começam a oscilar, o ciclo fica irregular e surgem os primeiros sintomas, muitas vezes anos antes da última menstruação. É comum a mulher não perceber que já está nessa fase. A segunda é a menopausa em si, que não é um período e sim um marco, definido depois de doze meses seguidos sem menstruar. A terceira é a pós-menopausa, todo o tempo que vem depois desse marco.

Os primeiros sinais aparecem quase todos na perimenopausa. Ciclo irregular, ondas de calor, suor noturno, sono mais fragmentado, oscilações de humor, mudanças na composição corporal e a névoa mental, aquela sensação de mente mais lenta e de dificuldade de concentração. Saber em qual fase a mulher está importa por um motivo prático. Vários marcadores do metabolismo têm faixas de referência diferentes na perimenopausa, na pós-menopausa e em quem já faz reposição hormonal. O mesmo valor pode significar coisas distintas em cada momento.

O que muda no metabolismo quando o estrogênio cai

O estrogênio faz muito mais do que regular a reprodução. Ele participa da produção de energia, do metabolismo das gorduras e até do manejo de aminoácidos. Por isso, quando ele cai, a mudança não fica restrita ao aparelho reprodutor, ela se espalha pelo metabolismo.

A metabolômica é boa exatamente em capturar esse tipo de mudança de conjunto. Um estudo que acompanhou de perto mulheres passando da perimenopausa para o início da pós-menopausa, com um método que quantifica muitos metabólitos ao mesmo tempo, mostrou que a menopausa esteve associada a alterações em dezenas de marcadores do metabolismo de uma só vez (Karppinen e cols., 2022). O trabalho observou mudanças no perfil de gorduras no sangue, em um aminoácido de cadeia ramificada, a leucina, e em marcadores ligados à produção de energia, como o citrato, que faz parte do ciclo que gera energia dentro da célula. E boa parte dessas mudanças acompanhou justamente a variação dos hormônios da transição.

Referência do estudo de coorte que mostra que a menopausa altera o metaboloma circulante, com título, autores, revista e DOI

Estudo que acompanhou mulheres na transição mostrou que a menopausa se associa a mudanças em dezenas de metabólitos ao mesmo tempo, muitas delas acompanhando a variação dos hormônios da fase.

Há uma pista antiga que ajuda a entender por que os aminoácidos entram nessa conversa. Trabalhos experimentais já mostraram que o estrogênio controla a forma como o corpo quebra os aminoácidos de cadeia ramificada (Obayashi e cols., 2004). Quando o estrogênio muda, esse manejo muda junto. Não é coincidência, portanto, que marcadores de aminoácidos e de energia apareçam alterados na transição. A leitura de conjunto é o que transforma esses pontos soltos em um retrato do que está acontecendo.

O estroboloma, a microbiota que reativa o estrogênio

Aqui entra uma peça que quase ninguém associa à menopausa, e que é uma das mais interessantes da metabolômica. O intestino participa diretamente do metabolismo do estrogênio, por meio do chamado estroboloma.

O caminho é o seguinte. Depois de cumprir seu papel, o estrogênio passa pelo fígado, que o prepara para ser eliminado ligando a ele uma marcação química, em um processo chamado conjugação. É como colocar o hormônio em um saco de lixo, pronto para sair pelo intestino. Acontece que certas bactérias intestinais produzem uma enzima, a beta-glicuronidase, capaz de abrir esse saco. Ela desfaz a marcação e devolve o estrogênio à sua forma ativa, que volta a ser reabsorvido e a circular. Esse conjunto de bactérias e genes com essa capacidade é o estroboloma.

Em equilíbrio, isso faz parte do metabolismo normal e é útil. O problema aparece quando a atividade da beta-glicuronidase fica alta demais, porque aí o corpo reativa mais estrogênio do que deveria. Um estudo testou dezenas de enzimas beta-glicuronidase de bactérias do intestino humano e demonstrou, de forma direta, que várias delas conseguem reativar o estrona e o estradiol a partir de suas formas conjugadas (Ervin e cols., 2019). Foi a confirmação, em bancada, de que o estroboloma não é apenas uma ideia, ele é um mecanismo real que interfere no equilíbrio hormonal.

Referência do estudo que demonstra que enzimas beta-glicuronidase da microbiota reativam estrogênios como parte do estroboloma, com título, autores, revista e DOI

Estudo em laboratório mostrou que várias enzimas beta-glicuronidase de bactérias do intestino conseguem reativar o estrogênio a partir de suas formas conjugadas, confirmando o estroboloma como um mecanismo real.

Por isso a metabolômica costuma incluir a beta-glicuronidase entre os marcadores da microbiota. Ela não mede o hormônio, mede a atividade que reativa o hormônio. É uma informação de funcionamento que um exame hormonal simples não oferece.

Metabólitos de estrogênio, o caminho e não só o nível

Existe ainda outra camada que a dosagem comum não mostra. O estrogênio não é apenas usado e descartado, ele é transformado em outros compostos, os metabólitos de estrogênio. E o caminho que essa transformação toma importa.

Ao ser processado no fígado, o estrogênio pode seguir por rotas diferentes e gerar metabólitos com comportamentos distintos. Alguns são considerados mais favoráveis, outros são associados a maior estímulo de proliferação celular. Por isso, na prática da metabolômica, não se olha só a quantidade, olha-se também a proporção entre esses metabólitos. Uma razão mais equilibrada entre eles é lida como um sinal mais tranquilo, e uma razão desfavorável funciona como um alerta para investigar melhor. Vale lembrar que essas faixas de referência mudam conforme a fase, sendo diferentes na pré e na pós-menopausa.

O ponto principal aqui é este. Esses marcadores ajudam a entender como o corpo está lidando com o estrogênio, e são úteis para o acompanhamento ao longo do tempo. Eles não são um diagnóstico por si só, nem uma sentença. São informação de contexto, que ganha sentido quando um médico cruza com a história, os sintomas e os demais exames da mulher.

A névoa mental e a insônia da transição

Duas das queixas que mais incomodam nessa fase têm relação direta com tudo o que foi dito até aqui. A névoa mental e a piora do sono não são frescura nem coisa da cabeça, elas têm base biológica.

O estrogênio atua no cérebro. Ele participa da forma como os neurônios usam energia e conversa com sistemas ligados ao humor, à memória e ao sono. Quando os seus níveis oscilam na perimenopausa, essa base fica instável, e o resultado prático é a sensação de raciocínio mais lento e de mente enevoada. A mesma instabilidade hormonal, somada às ondas de calor e ao suor noturno, atrapalha o sono e alimenta a insônia, que por sua vez piora a névoa mental no dia seguinte. É um ciclo que se retroalimenta.

A metabolômica não trata esses sintomas, mas ajuda a entender o terreno por trás deles. Marcadores da produção de energia, do metabolismo dos neurotransmissores e do estresse oxidativo compõem um pano de fundo que a queixa isolada não revela. Ver esse terreno é o que permite um cuidado mais individualizado, em vez de tratar cada sintoma como uma peça solta.

O que a metabolômica mostra além do exame hormonal

No fim, a diferença é de natureza. O exame hormonal responde a uma pergunta pontual e importante, qual é o nível do estrogênio agora. A metabolômica responde a outra, como o corpo está processando esse estrogênio e o que está acontecendo em volta dele.

Infográfico com o que a metabolômica acrescenta na transição da menopausa: metabólitos de estrogênio, estroboloma e energia mitocondrial

São três acréscimos concretos. A leitura dos metabólitos de estrogênio, que mostra o caminho da transformação e não só a dosagem. A atividade do estroboloma, pela beta-glicuronidase da microbiota, que revela se o intestino está reativando estrogênio demais. E os marcadores de energia e de aminoácidos, que ajudam a entender o cansaço e as mudanças metabólicas da fase. Nenhum desses aparece em um exame hormonal comum.

Nada disso substitui o acompanhamento clínico, e nada disso promete curar a menopausa, que é uma fase natural da vida, e não uma doença. O que a metabolômica oferece é enxergar melhor o funcionamento por trás dos sintomas, para que a conduta seja construída sobre informação, e não sobre suposição. E se você ainda quer entender o que exatamente esse exame mede e por que ele vê o que um exame comum não vê, vale começar pelo texto base do blog, o que é metabolômica.

Perguntas frequentes

Quais são os primeiros sinais da menopausa?

Os primeiros sinais costumam aparecer ainda na perimenopausa, antes de a menstruação parar de vez. Os mais comuns são as alterações no ciclo, que fica irregular, as ondas de calor, o suor noturno, a piora do sono, as oscilações de humor e uma sensação de raciocínio mais lento, a chamada névoa mental. Cansaço diferente do habitual e mudanças no peso também entram nesse quadro. São sinais de uma transição que acontece por anos, não de um evento único.

Quais são as fases da transição para a menopausa?

São três. A perimenopausa é a fase de transição, quando os hormônios começam a oscilar e o ciclo fica irregular, e é nela que costumam surgir os primeiros sintomas. A menopausa em si é um marco, definido depois de doze meses seguidos sem menstruar. A pós-menopausa é todo o período que vem depois desse marco. Entender em qual fase a mulher está muda a forma de ler os exames, porque os valores de referência de vários marcadores são diferentes em cada uma.

O que muda no metabolismo na menopausa?

A queda do estrogênio mexe com muito mais do que a reprodução. Estudos que acompanharam mulheres ao longo da transição mostraram mudanças em dezenas de marcadores do metabolismo ao mesmo tempo, incluindo o perfil de gorduras no sangue, marcadores da produção de energia e alguns aminoácidos. Isso ajuda a entender por que, nessa fase, aparecem queixas de cansaço, mudança na composição corporal e alterações que um exame hormonal isolado não explica.

O que é o estroboloma?

O estroboloma é o conjunto de genes e bactérias da microbiota intestinal capazes de agir sobre os estrogênios. Depois que o fígado prepara o estrogênio para ser eliminado, certas bactérias produzem uma enzima, a beta-glicuronidase, que consegue reativar esse hormônio no intestino e devolvê-lo à circulação. Em equilíbrio, isso faz parte do metabolismo normal. Quando a atividade dessa enzima fica alta demais, o equilíbrio hormonal pode ser afetado, e é isso que a metabolômica ajuda a enxergar.

Qual exame ajuda a entender a transição da menopausa?

O exame hormonal comum mostra o nível de estrogênio e de outros hormônios em um dado momento, o que é útil, mas não conta todo o caminho. A metabolômica acrescenta outra camada, porque mede metabólitos, os produtos do metabolismo, e mostra como o corpo está processando os estrogênios, como está a atividade do estroboloma e como anda a produção de energia. É uma leitura de funcionamento, não só de dosagem, e sempre precisa de um médico para interpretar dentro da história de cada mulher.

Metabolômica na prática clínica

Veja como funciona a consulta de nutrologia guiada por metabolômica com o Dr. Renato Susin, médico nutrólogo.

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Referências científicas

  1. Ervin SM, Li H, Lim L, et al. Gut microbial β-glucuronidases reactivate estrogens as components of the estrobolome that reactivate estrogens. J Biol Chem, 2019. PMID 31636122 · DOI
  2. Karppinen JE, Törmäkangas T, Kujala UM, et al. Menopause modulates the circulating metabolome: evidence from a prospective cohort study. Eur J Prev Cardiol, 2022. PMID 35930503 · DOI
  3. Obayashi M, Shimomura Y, Nakai N, et al. Estrogen controls branched-chain amino acid catabolism in female rats. J Nutr, 2004. PMID 15465758 · DOI
Dr. Renato Susin
Dr. Renato Susin
Médico nutrólogo
CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473

Médico nutrólogo com foco em metabolômica clínica e medicina funcional integrativa. Escreve traduzindo evidência em raciocínio de consultório.

Conteúdo educativo e informativo, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Não substitui consulta, diagnóstico, prescrição nem tratamento médico individual. A metabolômica é apresentada como exame complementar, que soma aos exames convencionais. Dr. Renato Susin, médico nutrólogo. CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473.