Saúde Mental e Cognição

Insônia: triptofano, melatonina e cortisol no sono

A insônia lida por metabólitos. Como a via do triptofano até a melatonina e o ritmo do cortisol ajudam a entender por que o sono não vem ou não repara.

Foto sóbria de uma pessoa deitada acordada no quarto à noite, com luz suave de amanhecer entrando pela janela, sugerindo sono não reparador
Ouça: a insônia pelo eixo triptofano, melatonina e cortisol
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Poucas queixas são tão comuns e tão frustrantes quanto não conseguir dormir. Tem quem demore horas para pegar no sono, quem acorde no meio da noite e fique olhando o teto, e quem durma as horas esperadas mas acorde sem nenhum descanso. Esse último caso tem até nome, sono não reparador, e mostra bem por que a insônia é mais do que contar as horas na cama.

O caminho mais comum é tratar a insônia pelo sintoma, tentando induzir o sono. Existe, porém, uma outra forma de olhar, que é perguntar o que, no funcionamento do corpo, está impedindo o sono de chegar ou de reparar. E boa parte dessa resposta passa por duas peças bioquímicas que conversam entre si, a via que vai do triptofano até a melatonina e o ritmo do cortisol ao longo do dia. É esse eixo que a metabolômica ajuda a enxergar.

A insônia não é uma coisa só

Antes de olhar a bioquímica, vale organizar o que chamamos de insônia, porque não é um quadro único. Pelo momento em que ela aparece, costuma-se falar em insônia inicial, quando a pessoa demora a adormecer, insônia de manutenção, quando desperta no meio da noite, e despertar precoce, quando acorda muito antes da hora. Some-se a isso o sono não reparador, em que o tempo dormido não se traduz em descanso.

Há ainda a divisão entre a insônia aguda, aquela ligada a um evento pontual como uma preocupação ou uma viagem, e a crônica, que se instala e persiste por semanas ou meses. O que leva a esse quadro raramente é uma causa só. Em geral é o encontro de um gatilho, como estresse, dor ou rotina desregulada, com uma predisposição do corpo a permanecer em estado de alerta. Entender essa predisposição é onde os metabólitos entram.

Do triptofano à melatonina: a via que prepara o sono

Existe uma linha de produção bioquímica que prepara o corpo para dormir, e ela começa em um aminoácido chamado triptofano, que vem da alimentação. A partir dele, o corpo fabrica serotonina, um neurotransmissor ligado ao bem-estar e ao humor, e a serotonina, por sua vez, é a matéria-prima da melatonina, o hormônio que sinaliza ao organismo que é hora de dormir. Triptofano, serotonina e melatonina são, portanto, degraus de uma mesma escada.

Essa escada não sobe sozinha. Cada passo depende de cofatores, que são as vitaminas e minerais que fazem as enzimas funcionarem. A vitamina B6 e o magnésio estão entre os principais nessa via, ao lado de outros como a vitamina B2. Quando falta triptofano disponível ou faltam esses cofatores, a produção de serotonina e de melatonina fica comprometida, e o sinal de sono chega fraco. Não à toa, um levantamento com quase trinta mil adultos observou que a maior ingestão de triptofano se associou a uma duração de sono maior e a menos sintomas de depressão (Lieberman e cols., 2016).

Uma revisão dedicada ao tema reuniu justamente essa leitura, mostrando que o destino do triptofano no corpo é altamente relevante para a insônia e para condições que costumam vir junto, como ansiedade, alterações de humor e dificuldade de concentração (Sarawi, 2025). É a via inteira, e não um ponto isolado, que ajuda a entender o quadro.

Referência do estudo sobre o metabolismo do triptofano e a via das quinureninas na insônia, com título, autora, revista e DOI

Revisão mostra que o destino do triptofano no corpo, entre a produção de serotonina e a via das quinureninas, é altamente relevante para a insônia e suas comorbidades.

Quando o triptofano segue por outro caminho

Aqui está um detalhe que muda a forma de entender a insônia. O triptofano não vai todo para a produção de serotonina. Na verdade, a maior parte dele segue por uma rota paralela, a via das quinureninas, que tem outras funções no corpo. Em condições normais isso é esperado. O problema aparece quando algo, como um estado de inflamação ou de estresse persistente, empurra ainda mais triptofano para esse desvio, sobrando menos matéria-prima para fabricar serotonina e, na sequência, melatonina.

Essa mesma via depende da vitamina B6 para funcionar de forma equilibrada. Quando falta B6, mesmo que de forma transitória, alguns metabólitos dessa rota se acumulam, e o exame consegue captar esse sinal. Ou seja, marcadores dessa via não só mostram para onde o triptofano está indo, como apontam a necessidade de um cofator específico. É por isso que ler a via inteira ajuda mais do que medir um único ponto, um raciocínio que vale para toda a metabolômica e que explico no texto base, o que é metabolômica.

O cortisol que não desliga à noite

Se a via do triptofano é o lado que deveria trazer o sono, o cortisol é o lado que pode espantá-lo. O cortisol é o hormônio do estado de alerta, e ele tem um ritmo. Deveria estar alto pela manhã, para nos colocar em ação, e baixo à noite, para permitir que o corpo desacelere e durma. Na insônia, esse ritmo muitas vezes se inverte ou se achata, e o corpo permanece ligado quando deveria estar desligando.

Esse é o mecanismo por trás daquela sensação de estar exausto mas sem conseguir dormir, tão típica da insônia ligada à ansiedade. A explicação está no eixo do estresse, o eixo que comanda o cortisol. Uma revisão sobre a fisiopatologia da insônia descreve exatamente isso, um estado de hiperativação em que o eixo do estresse fica excessivamente ativo, com secreção aumentada de cortisol, mantendo a pessoa em alerta na hora de dormir (Roth e cols., 2007). Não por acaso, estudos mostram que a insônia se associa a um aumento da produção de cortisol ao longo das vinte e quatro horas, sinal de um sistema nervoso hiperativado (Vgontzas e Chrousos, 2002).

Referência do estudo sobre a fisiopatologia da insônia e a hiperatividade do eixo do estresse, com título, autores, revista e DOI

Revisão sobre a fisiopatologia da insônia descreve a hiperativação do eixo do estresse, com excesso de cortisol, como um mecanismo central da dificuldade de dormir.

Esse cortisol que não baixa à noite é o mesmo que, quando cronicamente elevado, aparece em outras queixas do dia a dia. Se essa parte te interessa, vale ler sobre o cortisol alto e como ele se manifesta.

O que a metabolômica enxerga no sono

Juntando as duas pontas, dá para ver por que um exame que lê metabólitos ajuda a investigar o sono. Ele não substitui a avaliação clínica nem o estudo do sono quando este é indicado, mas mostra o funcionamento por trás da queixa, algo que os exames convencionais raramente alcançam nessa área.

Na prática, a metabolômica olha para três frentes ao mesmo tempo. A primeira é a via do triptofano, com marcadores que refletem a produção de serotonina e, portanto, a matéria-prima da melatonina. A segunda é a via das quinureninas, com marcadores que sinalizam para onde o triptofano está indo e a necessidade de cofatores como a vitamina B6. A terceira é o eixo do estresse, com sinais que acompanham a resposta ao cortisol. Ler essas frentes em conjunto é o que aproxima o exame do funcionamento real do sono.

Vale lembrar que esse mesmo eixo aparece em queixas vizinhas. A dificuldade de concentração e a sensação de cabeça lenta que muita gente sente após noites mal dormidas conversam diretamente com a névoa mental, e não raro compartilham as mesmas raízes bioquímicas.

Infográfico do eixo do sono, a via do triptofano até a melatonina e o ritmo do cortisol ao longo do dia

O que isso muda para você

Se você convive com insônia ou com aquele sono que não repara, a primeira medida continua sendo cuidar da higiene do sono, com horários regulares, menos telas à noite e atenção ao café e ao álcool no fim do dia. Mas quando o problema persiste, faz diferença procurar a causa em vez de apenas induzir o sono.

Olhar a via que vai do triptofano até a melatonina e o ritmo do cortisol é uma forma de sair do sintoma e chegar ao mecanismo. É isso que permite uma conduta mais direcionada, seja ajustando cofatores que a via precisa, seja trabalhando o eixo do estresse que mantém o corpo ligado. E, como sempre, esses metabólitos só viram decisão clínica quando um médico treinado cruza o resultado com a sua história e as suas queixas.

Perguntas frequentes

O que leva à insônia?

A insônia raramente tem uma causa única. Ela costuma nascer do encontro de um gatilho, como estresse, dor ou uma rotina desregulada, com uma predisposição do próprio corpo a ficar em estado de alerta. Por trás desse alerta há um componente bioquímico. De um lado, a via que parte do triptofano e deveria produzir serotonina e melatonina pode estar prejudicada. De outro, o eixo do estresse pode manter o cortisol alto na hora em que ele deveria estar baixo. É essa combinação que sustenta a noite mal dormida.

Quais são os tipos de insônia?

Na prática clínica, costuma-se separar a insônia pelo momento em que ela aparece. Há a insônia inicial, quando a pessoa demora a pegar no sono, a insônia de manutenção, quando ela acorda no meio da noite e não volta a dormir, e o despertar precoce, quando acorda muito antes do horário. Existe ainda o sono não reparador, em que a pessoa até dorme as horas esperadas mas acorda sem descanso. Também se divide a insônia entre aguda, ligada a um evento pontual, e crônica, quando persiste por semanas ou meses.

O que fazer para tirar a insônia?

O primeiro passo é cuidar do que a medicina chama de higiene do sono: horários regulares, menos luz de telas à noite, ambiente escuro e silencioso, e atenção a café e álcool no fim do dia. Quando a insônia persiste, vale investigar a causa em vez de só combater o sintoma. É aí que entra entender como está a via que produz melatonina e como está o ritmo do cortisol, porque tratar a origem tende a dar um resultado mais duradouro do que apenas induzir o sono.

Como é a insônia da ansiedade?

A insônia ligada à ansiedade costuma ter uma marca clara, a mente acelerada na hora de dormir e a sensação de estar ligado mesmo exausto. Isso tem uma tradução bioquímica no eixo do estresse. Quando o cortisol e os sinais de alerta permanecem altos à noite, o corpo entende que não é hora de desligar. Por isso a pessoa deita cansada mas não desacelera. É um estado de hiperativação que se sobrepõe ao sono.

Qual exame ajuda a investigar o sono?

Além da avaliação clínica e, quando indicado, do estudo do sono, a metabolômica ajuda a olhar o funcionamento por trás da queixa. Ela lê marcadores da via do triptofano, como os que refletem a produção de serotonina, e marcadores que sinalizam a necessidade de cofatores como a vitamina B6, além de sinais do eixo do estresse ligados ao cortisol. Não é um exame que fecha um diagnóstico sozinho, mas ajuda o médico a entender por que o sono não vem ou não repara.

Metabolômica na prática clínica

Veja como funciona a consulta de nutrologia guiada por metabolômica com o Dr. Renato Susin, médico nutrólogo.

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Referências científicas

  1. Sarawi WS. Neurochemical Insights into the Role of Tryptophan Metabolites and Kynurenine Pathway in Insomnia and its Psychological and Neurological Comorbidities. Mol Neurobiol, 2025. PMID 40681828 · DOI
  2. Roth T, Roehrs T, Pies R. Insomnia: pathophysiology and implications for treatment. Sleep Med Rev, 2007. PMID 17175184 · DOI
  3. Lieberman HR, Agarwal S, Fulgoni VL. Tryptophan Intake in the US Adult Population Is Not Related to Liver or Kidney Function but Is Associated with Depression and Sleep Outcomes. J Nutr, 2016. PMID 27934652 · DOI
  4. Vgontzas AN, Chrousos GP. Sleep, the hypothalamic-pituitary-adrenal axis, and cytokines: multiple interactions and disturbances in sleep disorders. Endocrinol Metab Clin North Am, 2002. PMID 12055986 · DOI
Dr. Renato Susin
Dr. Renato Susin
Médico nutrólogo
CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473

Médico nutrólogo com foco em metabolômica clínica e medicina funcional integrativa. Escreve traduzindo evidência em raciocínio de consultório.

Conteúdo educativo e informativo, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Não substitui consulta, diagnóstico, prescrição nem tratamento médico individual. A metabolômica é apresentada como exame complementar, que soma aos exames convencionais. Dr. Renato Susin, médico nutrólogo. CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473.