Vitamina B2: a riboflavina esquecida e o marcador que mostra a falta dela
A riboflavina é o cofator da enzima que ativa o folato, da enzima que ativa a vitamina B6 e de etapas do ciclo de energia. Entenda por que a falta dela aparece na urina antes de aparecer no sangue.
Quem descobre que tem a variante do MTHFR costuma sair da consulta com a prescrição de metilfolato na mão. O MTHFR é o gene que codifica a enzima responsável por deixar o folato na forma capaz de doar um grupo metil, e repor a vitamina já na forma metilada se tornou a conduta mais frequente diante desse resultado.
O que essa conduta costuma deixar de fora é a própria enzima. Ela não trabalha sozinha, precisa de um cofator encaixado para funcionar, e esse cofator vem da riboflavina, a vitamina B2, que é a menos lembrada do complexo e sustenta justamente a enzima mais citada.
A riboflavina não trabalha como riboflavina
A vitamina B2 não age na forma em que chega pela alimentação. Dentro da célula ela é convertida em duas coenzimas, a flavina mononucleotídeo e a flavina adenina dinucleotídeo, conhecida pela sigla FAD, e são elas que se encaixam nas enzimas. A riboflavina é a matéria-prima, e a FAD é a ferramenta pronta. Essa distinção tem consequência prática, porque ter riboflavina circulando no sangue não garante que exista FAD suficiente dentro da mitocôndria, que é onde a coenzima precisa estar para trabalhar.
A mesma peça aparece em muitos lugares da linha
A riboflavina é um caso incomum dentro do complexo B, porque não serve a uma via apenas. Ela é exigida em pontos distantes do metabolismo ao mesmo tempo.
- No ciclo do folato, a FAD é o cofator da enzima que produz a forma ativa do folato, a mesma enzima codificada pelo gene MTHFR.
- Na ativação da vitamina B6, a riboflavina é cofator da enzima que converte as formas alimentares de B6 no piridoxal-5-fosfato, que é a forma que o corpo usa. Ou seja, a B2 é cofator de outra vitamina do complexo B.
- Na queima de gordura, os ácidos graxos não conseguem sofrer oxidação dentro da mitocôndria sem as coenzimas da riboflavina.
- No ciclo de energia da célula, a succinato desidrogenase depende de FAD para seguir adiante no ciclo do ácido cítrico.
- Na defesa antioxidante, a enzima que recicla a glutationa oxidada de volta à forma útil também é dependente de flavina.
É por isso que a falta de riboflavina não produz um sintoma característico, e sim uma lentidão espalhada. A mesma peça está em falta em várias estações da linha de montagem ao mesmo tempo, e cada estação atrasa um pouco.
A variante genética que aumenta a dependência da B2
A variante mais estudada do MTHFR produz uma enzima que segura o cofator com menos firmeza, e esse cofator é a FAD, que vem da riboflavina. A enzima continua funcionando, só que passa a depender mais do suprimento de vitamina B2 do que a versão comum do gene depende.
Essa variante é frequente na população e ter uma enzima com menos folga não caracteriza doença, tanto que a maior parte das pessoas que a carrega atravessa a vida sem repercussão clínica. O genótipo isolado também não define conduta. Ele ajuda a interpretar o restante do caso, e a decisão continua nascendo do conjunto, com o médico que acompanha a pessoa.
O marcador funcional: o que se acumula quando a B2 falta
Quando o cofator falta, a enzima raramente para. Ela desacelera, e o material que deveria ser consumido se acumula logo antes dela e transborda na urina. Esse transbordo é o que se chama de marcador funcional, e foi o assunto do artigo que abre esta série sobre o complexo B.
No caso da riboflavina, o marcador mais característico é o ácido glutárico.
Ele nasce da quebra de dois aminoácidos da alimentação, a lisina e o triptofano. O passo que interessa depende de uma enzima chamada glutaril-CoA desidrogenase, cujo cofator é justamente a FAD. Quando esse passo perde velocidade, o material se acumula e parte dele sai como ácido glutárico.
Ele não anda sozinho no laudo. Outros marcadores do mesmo painel apontam para a riboflavina por caminhos diferentes.
| Marcador na urina | Por que ele aponta para a vitamina B2 |
|---|---|
| Ácido glutárico | a enzima que consome o glutaril-CoA tem a FAD como cofator |
| Succinato | a succinato desidrogenase, no ciclo de energia, é dependente de FAD |
| Adipato e suberato | a gordura não é oxidada na mitocôndria sem as coenzimas da riboflavina |
| Etilmalonato | sobe quando falta carnitina, riboflavina, ou as duas |
| Alfa-cetoácidos de cadeia ramificada | o complexo que os consome exige B1, B2, B3, B5 e ácido lipoico juntos |
A última linha do quadro merece atenção, porque ela é a origem de boa parte das interpretações equivocadas desse painel. Os alfa-cetoácidos, que vêm da quebra da valina, da leucina e da isoleucina, sobem quando falta qualquer uma de cinco peças diferentes. Eles informam que aquele complexo enzimático está lento, e não qual peça está faltando. Quem responde a essa segunda pergunta é o conjunto do painel, e é por isso que ler um marcador isolado conduz com facilidade à conclusão errada.
Boa parte do que se conhece sobre essa via veio dos erros inatos do metabolismo, doenças raras em que a enzima é gravemente deficiente e o ácido glutárico se acumula em quantidade muito maior. Esses casos demonstram que o marcador reflete de fato a atividade da enzima. Eles não demonstram que uma elevação discreta num adulto com cansaço tenha o mesmo significado, e essa diferença de magnitude precisa entrar na leitura do exame.
O que um ensaio com placebo mostrou
A evidência disponível sobre riboflavina tem naturezas distintas, e vale distinguir o que cada tipo de estudo autoriza afirmar. Os dois trabalhos abaixo ilustram essa diferença.
O primeiro tem o desenho metodologicamente mais forte, por ser um ensaio randomizado com placebo e desfecho objetivo. Ainda assim, convém observar o alcance exato do que ele demonstra: o efeito apareceu num grupo definido pelo genótipo, em pessoas que seguiram tomando os anti-hipertensivos durante todo o estudo. Não se trata de um resultado sobre a população geral, e ele não sustenta a substituição de tratamento por vitamina.
O segundo é uma revisão de mecanismos, não um teste, e por isso o grau de comprovação é menor. Sua utilidade está em reunir num único lugar a extensão das funções que dependem da riboflavina, o que ajuda a compreender por que a insuficiência dela se manifesta de forma difusa.
Quatro caminhos até o ácido glutárico alto
Um marcador funcional de riboflavina alterado abre um leque de possibilidades, e separar essas causas é a parte propriamente clínica do trabalho.
A ingestão pode estar insuficiente. A riboflavina está no leite e derivados, no ovo, nas vísceras, nas amêndoas e nas folhas verde-escuras. Padrões alimentares que excluem esses grupos simultaneamente reduzem a oferta da vitamina sem produzir qualquer sinal imediato.
O consumo de álcool pode estar contribuindo. O uso frequente aumenta a chance de deficiência, por prejuízo tanto na absorção quanto na conversão da vitamina nas suas coenzimas, e esse dado nem sempre é levantado na consulta.
A demanda pode estar aumentada. Uma enzima geneticamente mais lenta consome mais cofator para entregar o mesmo trabalho.
A causa pode não ser a riboflavina. O ácido glutárico também se eleva quando a carnitina está baixa ou quando o transporte de elétrons na mitocôndria está comprometido, e o etilmalonato apresenta a mesma ambiguidade. Por isso a leitura desse marcador costuma envolver três peças juntas, a riboflavina, a carnitina e a coenzima Q10, e nunca uma isolada.
Os sinais que a literatura descreve
A deficiência de riboflavina é descrita com fadiga, fraqueza, garganta inflamada, rachaduras nos cantos da boca e língua avermelhada ou brilhante.
Nenhum desses sinais é específico da riboflavina. Cada um deles ocorre em dezenas de situações diferentes, algumas sem maior importância e outras graves, e nenhum deles, isolado ou em conjunto, estabelece uma deficiência de vitamina B2. O papel desses sinais é entrar na lista do que se investiga, ao lado do exame e do restante da história clínica. Atribuir uma queixa inteira a uma vitamina é a simplificação mais frequente nesse tema, e ela costuma interromper o raciocínio antes da hora.
Os limites do ácido glutárico
Existe uma dosagem de riboflavina no sangue, e ela responde a uma pergunta legítima, que é quanto da vitamina está circulando. O problema prático é que esse valor oscila com a alimentação recente, o que limita o que ele diz sobre a situação dentro da célula. O marcador funcional responde a outra pergunta, que é o quanto dessa vitamina está efetivamente entrando nas reações. As duas medidas somam.
Ele não fecha diagnóstico, não transforma resultado em prescrição e não decide nada sozinho. Um ácido glutárico elevado é o começo de uma investigação, e a conduta nasce do caso inteiro, dentro de um acompanhamento médico.
Quando a dosagem convencional volta dentro da faixa e a queixa permanece, o ácido glutárico indica onde continuar procurando. No caso da riboflavina, esse ponto costuma ficar fora da discussão sobre metilação, que se concentra no folato e na vitamina B12 e raramente chega ao cofator de que a enzima depende.
Perguntas frequentes
O que é a vitamina B2 e para que ela serve?
A vitamina B2, ou riboflavina, é uma vitamina do complexo B que o corpo transforma em duas coenzimas, a flavina mononucleotídeo e a flavina adenina dinucleotídeo. São essas duas formas que se encaixam nas enzimas e permitem a reação acontecer. Elas participam da queima de gordura dentro da mitocôndria, do ciclo de energia da célula, da reciclagem da glutationa, da ativação da vitamina B6 e do ciclo do folato.
Qual é o marcador funcional da vitamina B2?
No perfil de ácidos orgânicos na urina, o marcador mais característico é o ácido glutárico, que vem da quebra da lisina e do triptofano e se acumula quando a enzima que depende da riboflavina trabalha devagar. Ele costuma ser lido junto com o succinato, o adipato, o suberato, o etilmalonato e os alfa-cetoácidos de cadeia ramificada, porque essas vias compartilham o mesmo cofator.
Tenho a variante do MTHFR. Preciso tomar riboflavina?
Não é uma conclusão automática. A variante é comum na população e tê-la não significa ter doença. O que a pesquisa mostra é que a enzima produzida por essa variante segura o cofator com menos firmeza, o que aumenta a dependência da riboflavina. Se isso importa no seu caso depende do conjunto, da alimentação, dos marcadores e do quadro clínico, e essa avaliação é médica.
O exame de sangue de vitamina B2 não resolve?
Ele responde a uma pergunta diferente. A dosagem mede a vitamina que está circulando naquele momento, e a riboflavina circulante oscila bastante com a última refeição. O marcador funcional mostra o resultado do trabalho dela dentro da célula, que é o que muda a leitura clínica. As duas medidas somam.
Ácido glutárico alto no exame significa doença?
Não. Um marcador alterado abre uma investigação, não fecha um diagnóstico. O mesmo achado pode vir de ingestão insuficiente, de consumo aumentado, de dificuldade na entrada de gordura na mitocôndria ou de uma enzima geneticamente mais lenta. A leitura só faz sentido dentro do contexto da pessoa e com acompanhamento médico.
Metabolômica na prática clínica
Veja como funciona a consulta de nutrologia guiada por metabolômica com o Dr. Renato Susin, médico nutrólogo.
Agendar consultaReferências científicas
- Wilson CP, McNulty H, Ward M, Strain JJ, Trouton TG, Hoeft BA, Weber P, Roos FF, Horigan G, McAnena L, Scott JM. Blood pressure in treated hypertensive individuals with the MTHFR 677TT genotype is responsive to intervention with riboflavin: findings of a targeted randomized trial. Hypertension, 2013. PMID 23608654 · DOI
- Marashly ET, Bohlega SA. Riboflavin Has Neuroprotective Potential: Focus on Parkinson's Disease and Migraine. Front Neurol, 2017. PMID 28775706 · DOI
Conteúdo educativo e informativo, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Não substitui consulta, diagnóstico, prescrição nem tratamento médico individual. A metabolômica é apresentada como exame complementar, que soma aos exames convencionais. Dr. Renato Susin, médico nutrólogo. CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473.