Ácido úrico alto sem gota: o que ele mostra do metabolismo
Ácido úrico alto sem crise de gota: por que a frutose passou à frente da purina e o que o marcador mostra sobre o fígado e a mitocôndria.
A gota tem contornos definidos, com dor articular de início súbito, articulação vermelha e quente, e cristais que se depositam dentro dela. É a imagem que o nome ácido úrico carrega, e ela é tão forte que organiza a leitura do exame inteiro. Quando o resultado volta acima da faixa impressa em alguém que nunca teve uma crise, a leitura que se impõe sem esforço é a de uma gota prestes a acontecer, e a orientação costuma parar em conferir o exame outra vez adiante e em reduzir a carne vermelha. O restante do que aquele número informa fica de fora dessa leitura.
O ácido úrico é o produto final da degradação das purinas, e é também um retrato de como está funcionando o metabolismo de quem fez o exame. A concentração dele acompanha situações que não têm relação nenhuma com articulação, da pressão arterial ao acúmulo de gordura no fígado, e a causa mais frequente de valores altos hoje não é a que aparece em primeiro lugar nas orientações de sempre. Ela está na frutose, e o caminho que liga uma coisa à outra passa pela conta de energia da célula.
O que o corpo faz com as purinas
As purinas são componentes fundamentais do DNA e do RNA, ou seja, peças da estrutura do material genético de todas as células. Elas entram pela alimentação e, em quantidade bem maior, vêm da renovação natural do próprio organismo, já que células morrem e têm o material desmontado e reaproveitado o tempo inteiro. A degradação dessas peças percorre uma sequência de enzimas e termina no ácido úrico, que o organismo humano não quebra mais e elimina principalmente pelos rins. O exame é lido, portanto, como uma medida do quanto essa via está sendo movimentada.
Um produto de fim de linha tende a ser tratado como resíduo, e o ácido úrico não se encaixa bem nessa descrição. Ele tem funções reconhecidas no organismo, e é isso que sustenta a ideia de que a concentração dele não é algo a ser zerado. A molécula ocupa a posição incomum de algo que o corpo produz de propósito e ao mesmo tempo precisa manter sob controle.
A frutose não é a fruta
A orientação clássica diante de um ácido úrico alto começa pela proteína animal, com destaque para as carnes vermelhas, as vísceras e alguns peixes, que são alimentos ricos em purinas. Essa relação existe e continua valendo. O que mudou foi a posição dela na lista, porque o padrão alimentar das últimas décadas colocou outro item à frente, e esse item é a frutose.
A frutose é o açúcar da fruta, e é daí que vem a confusão. A fruta inteira traz esse açúcar acompanhado de fibra, água e volume, e a quantidade que cabe em uma porção é limitada pela própria saciedade. O que se multiplicou no consumo não foi a fruta, foi a frutose concentrada, que chega em forma líquida e sem a estrutura que a acompanhava. Nos países que adoçam os produtos industrializados com xarope de milho rico em frutose, a exposição vem principalmente daí. No Brasil, onde o açúcar de mesa é de cana, o peso maior está no suco, pronto ou feito em casa em quantidade grande, porque várias frutas espremidas em um copo entregam de uma vez o açúcar que ninguém comeria inteiro.
A distinção importa porque a frutose chega quase toda ao fígado, que é o órgão preparado para processá-la, e o que acontece nessa primeira etapa hepática é o que liga o açúcar ao ácido úrico.
A reação que precisa gastar energia para acontecer
Dentro da célula do fígado, a frutose é metabolizada pela frutoquinase C, a enzima que dá o primeiro passo dessa via. Esse primeiro passo consiste em colocar um grupo fosfato na molécula de frutose, e o fosfato usado vem do ATP, que é a moeda de energia da célula. A reação, portanto, gasta energia para começar (Jensen e cols., 2018).
Gastar ATP na entrada de uma via não é uma anormalidade, e o metabolismo da glicose também começa por uma fosforilação. A diferença está no controle, porque os primeiros passos do metabolismo da glicose obedecem a mecanismos de regulação que reduzem o ritmo quando não existe necessidade de continuar. A frutose que chega ao fígado é fosforilada de forma rápida e continuada, e é esse consumo de energia que a revisão descreve como o começo da cadeia (Jensen e cols., 2018).
A consequência é uma queda transitória do ATP disponível dentro da célula. O que sobra dessa queda são os nucleotídeos que carregavam o fosfato, agora sem ele, e eles entram na via de degradação, no processo que a literatura descreve como turnover de nucleotídeos, ou seja, a renovação acelerada dessas moléculas. Essa degradação termina exatamente onde termina a degradação das purinas, no ácido úrico (Jensen e cols., 2018). É esse o caminho que faz uma bebida adoçada elevar um marcador que costuma ser associado à carne vermelha.
O que a frutose deixa no fígado
O destino da frutose no fígado não para na produção de ácido úrico. Uma revisão publicada em 2018 no Journal of Hepatology, sobre a participação do açúcar na doença hepática gordurosa não alcoólica, descreve dois caminhos que se somam. De um lado, a frutose serve de matéria-prima para a lipogênese, que é a fabricação de gordura nova dentro da célula do fígado. De outro, ela reduz a oxidação de gorduras, ou seja, a queima daquelas que já estão armazenadas ali. Fabricar mais e queimar menos são dois movimentos na mesma direção, e o resultado é o acúmulo de gordura no órgão (Jensen e cols., 2018).
A parte que muda o estatuto do exame vem em seguida. Os autores descrevem que o ácido úrico gerado nesse processo não é apenas o rastro dele. Ele medeia o acúmulo de gordura no fígado, quer dizer, participa do mecanismo que produz esse acúmulo em vez de apenas registrar que ele aconteceu (Jensen e cols., 2018). Um produto de fim de linha que age sobre a via que o originou deixa de ser a conta do que foi gasto e passa a ser parte do que está acontecendo.
A mesma revisão acrescenta uma camada que sai do fígado. Alterações da permeabilidade intestinal, mudanças na composição do microbioma e a endotoxemia, que é a passagem de componentes da parede de bactérias para a corrente sanguínea, contribuem para o risco associado ao consumo elevado de açúcar (Jensen e cols., 2018). O processo não fica restrito ao interior da célula hepática, e o intestino entra na conta junto com ela.
A pressão arterial e as outras associações do marcador
O ácido úrico aparece associado à hipertensão arterial, e essa associação é descrita sobretudo em adolescentes e crianças, faixa etária em que a concentração média vem subindo ao longo dos anos. Um marcador que a prática associava a adultos com crise articular aparece alterado cedo, e aparece justamente na faixa em que o consumo de bebida adoçada é maior.
A lista de associações inclui também a disfunção erétil, com estudos que ligam a concentração sérica aumentada ao risco, e a disfunção mitocondrial, que é o funcionamento comprometido das mitocôndrias, as estruturas responsáveis pela produção de energia dentro da célula. O marcador costuma ainda acompanhar a resistência à insulina, o que faz os dois aparecerem juntos no mesmo painel com frequência. A associação com a mitocôndria é a que mais desloca a leitura do exame, porque tira o ácido úrico da condição de item isolado.
O trio que se lê junto quando a suspeita é sobrecarga crônica
Na avaliação de sobrecarga tóxica crônica, o ácido úrico costuma ser lido ao lado de dois outros exames baratos e comuns, a gama GT e a ferritina. Os três não têm nada em comum na origem. Um vem do metabolismo das purinas, o segundo é uma enzima que participa da reciclagem da glutationa, a defesa antioxidante que a célula fabrica para si, e o terceiro é a proteína que guarda ferro e que sobe em estados inflamatórios. O que aproxima os três é o comportamento diante de mitocôndrias submetidas a agressão sustentada.
Quando o ácido úrico elevado aparece dentro desse conjunto, e não sozinho, a hipótese que ele ajuda a levantar deixa de ser a alimentar e passa a ser a de sobrecarga química de longa data agindo sobre a mitocôndria, cenário que o artigo sobre a gama GT alterada em quem não bebe descreve por inteiro. Nenhuma combinação de resultados fecha esse raciocínio fora da avaliação clínica, e a decisão sobre o que investigar depois é de quem conduz a investigação, somando a história e o exame físico ao restante do painel.
O caminho inverso vale igualmente. Um ácido úrico elevado com o restante do painel sem alteração descreve outra situação, e a diferença entre uma leitura e outra não está no valor do ácido úrico, está no que aparece ao redor dele.
O que os ensaios ainda não mostraram
A revisão que descreve todo esse mecanismo é cuidadosa na hora de convertê-lo em recomendação. Os autores registram que os estudos clínicos iniciais sugerem benefício da redução do consumo de bebidas açucaradas, e que ensaios maiores e mais definitivos ainda são necessários antes de afirmar que bloquear a geração de ácido úrico produz benefício (Jensen e cols., 2018). São duas afirmações diferentes, e a distância entre elas é o que separa um mecanismo bem descrito de uma conduta estabelecida.
Essa ressalva evita o salto que um mecanismo elegante convida a dar. Uma via bem descrita mostra como uma coisa leva à outra e não prova, por si, que interromper aquele passo específico mude o desfecho de quem está sendo tratado. Mecanismos corretos cujo bloqueio não produziu o benefício esperado não são raros na história da medicina.
O que fica de sólido é a leitura do exame. Um ácido úrico alto em quem nunca teve crise de gota é uma informação sobre o metabolismo daquela pessoa, sobre a quantidade de açúcar que o fígado dela está processando e sobre o esforço a que as mitocôndrias estão submetidas. O intervalo do laudo retrata como um grupo se distribuiu, e não onde termina a saúde, distinção desenvolvida em valor de referência não é valor ótimo, e a posição do resultado dentro do intervalo já carrega informação antes que o limite superior seja ultrapassado. Um exame barato, que quase todo laudo de rotina traz por padrão, termina dizendo mais sobre o fígado e sobre a energia da célula do que sobre a articulação que deu nome a ele.
Perguntas frequentes
O que significa ácido úrico alto?
O ácido úrico é o produto final da degradação das purinas, que são componentes do DNA e do RNA de todas as células. Um resultado alto indica que essa via está sendo muito movimentada, seja pela renovação das próprias células, seja pelo que chega da alimentação, seja pelo gasto de energia que o metabolismo da frutose provoca no fígado. O número sozinho não diz qual desses caminhos predomina, e quem separa um do outro é o médico, com os demais exames e com a história clínica.
Ácido úrico alto sem gota é problema?
A gota é a associação mais conhecida, mas está longe de ser a única. A concentração elevada aparece ligada à pressão arterial aumentada, ao acúmulo de gordura no fígado, à disfunção erétil e a sinais de sofrimento das mitocôndrias, que são as estruturas produtoras de energia da célula. Em quem nunca teve crise articular, o resultado funciona menos como aviso de gota e mais como informação sobre o metabolismo daquela pessoa.
O que aumenta o ácido úrico além da carne?
A frutose em forma concentrada é hoje uma das causas mais frequentes, principalmente na forma líquida, porque o metabolismo dela no fígado consome energia da célula e essa perda de energia termina em produção de ácido úrico. Somam-se a isso o excesso de peso, a resistência à insulina, o funcionamento comprometido das mitocôndrias e a redução da eliminação pelos rins. As purinas da alimentação continuam contando, apenas deixaram de ser a explicação principal.
Quem tem ácido úrico alto precisa cortar fruta?
A fruta inteira não é a mesma coisa que a frutose concentrada. Na fruta, o açúcar vem acompanhado de fibra, água e volume, e a quantidade que cabe em uma porção é limitada pela saciedade. O que se multiplicou no padrão alimentar foi a frutose sem essa estrutura, sobretudo na forma de bebida. Qualquer mudança alimentar dirigida a um resultado de exame é decisão de quem acompanha o caso, e não uma regra geral.
Ácido úrico alto tem a ver com gordura no fígado?
A literatura descreve uma ligação nos dois sentidos. O metabolismo da frutose no fígado gera ácido úrico e, ao mesmo tempo, favorece o acúmulo de gordura no órgão, por aumentar a fabricação de gordura nova e reduzir a queima daquela que já está armazenada. O ácido úrico produzido nesse processo participa desse acúmulo em vez de apenas registrá-lo, o que ajuda a explicar por que os dois achados costumam aparecer juntos.
Metabolômica na prática clínica
Veja como funciona a consulta de nutrologia guiada por metabolômica com o Dr. Renato Susin, médico nutrólogo.
Agendar consultaReferências científicas
- Jensen T, Abdelmalek MF, Sullivan S, et al. Fructose and sugar: A major mediator of non-alcoholic fatty liver disease. J Hepatol, 2018. PMID 29408694 · DOI
Conteúdo educativo e informativo, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Não substitui consulta, diagnóstico, prescrição nem tratamento médico individual. A metabolômica é apresentada como exame complementar, que soma aos exames convencionais. Dr. Renato Susin, médico nutrólogo. CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473.