Emagrecimento e Metabolismo

Índice TyG: resistência à insulina em dois exames que você já fez

O índice TyG combina triglicerídeos e glicose de jejum para levantar suspeita de resistência à insulina. O que ele mostra e onde os estudos divergem.

Laudo laboratorial impresso sobre a mesa de um consultório, com o texto fora de foco e um tubo de coleta ao lado
Ouça: o que o índice TyG mostra sobre a resistência à insulina?
3:00

Quase todo adulto que fez exames de rotina nos últimos anos tem, no aplicativo do laboratório ou em alguma pasta de papel, um laudo com triglicerídeos e glicose de jejum. São dois exames baratos, pedidos por praticamente qualquer médico, e conferidos um de cada vez, cada um comparado com a faixa impressa ao lado dele e arquivado assim que cabe ali dentro. O índice TyG nasce de uma pergunta diferente, a de o que esses dois números dizem quando são lidos em conjunto, e a resposta que ele tenta dar é sobre a insulina, um hormônio que não aparece em nenhuma das duas linhas do laudo.

O interesse por esse tipo de índice vem de um problema concreto do consultório. A resistência à insulina se instala de forma silenciosa e avança por anos sem alterar a glicemia de jejum, porque o pâncreas passa a fabricar mais insulina para manter a glicose dentro da faixa, e enquanto essa compensação dá conta o resultado impresso não denuncia nada. A lógica dessa fase silenciosa e dos marcadores que a denunciam está detalhada no artigo sobre resistência à insulina. O que este texto acrescenta é uma alternativa mais modesta e mais imediata, que não depende de painel algum, apenas de dois resultados que a pessoa já tem em mãos.

Por que a insulina de jejum sozinha não fecha a pergunta

O caminho mais direto para investigar a resistência à insulina seria dosar a própria insulina, e ele é usado. A dificuldade aparece na hora de interpretar o resultado, porque não existe um ponto de corte de hiperinsulinemia adotado oficialmente por entidade médica ou de nutrição. Cada laboratório imprime a sua faixa de referência, essas faixas variam bastante entre serviços, e um mesmo resultado pode receber a seta de alteração em um laudo e passar sem marcação em outro. A faixa impressa descreve como um grupo de pessoas se distribuiu naquele exame, questão que o artigo sobre valor de referência e valor ótimo desenvolve, e descrever um grupo não é o mesmo que definir a partir de qual ponto a insulina alta começa a cobrar seu preço.

Some-se a isso que uma única coleta capta um instante, e que duas dosagens da mesma pessoa em semanas diferentes podem sair distantes uma da outra. É esse vazio, entre um exame que oscila e uma referência sobre a qual não existe consenso, que abre espaço para índices calculados a partir de outros marcadores, e o índice TyG é o mais simples deles, porque não usa a insulina em lugar nenhum da conta.

O que o índice TyG faz com dois números que já estão no papel

A proposta é aritmética e o material é banal. Em vez de medir a insulina, o índice combina os triglicerídeos e a glicose de jejum por meio de uma fórmula logarítmica, transformando dois valores independentes em um único número que se pretende mais informativo do que cada um deles isolado. A combinação não é uma média nem uma divisão entre os dois, e a conta não se faz de cabeça, ainda que seja trivial para quem tem a fórmula em mãos.

O raciocínio por trás dessa escolha é fisiológico. A glicose de jejum carrega o lado glicêmico do problema mesmo quando ainda está dentro da faixa, porque a variação dela dentro do normal já reflete parte do esforço que o pâncreas está fazendo para manter aquele valor. Os triglicerídeos carregam o lado lipídico do mesmo desequilíbrio, já que o excesso crônico de insulina estimula a produção de gordura no fígado e a exportação dela para o sangue. Quando os dois valores sobem juntos, ainda que discretamente e ainda que cada um permaneça dentro da referência impressa, a leitura combinada tende a expor uma sobrecarga que nenhuma das duas linhas do laudo, olhada isoladamente, denuncia.

Esquema com triglicerídeos e glicose de jejum convergindo para um único índice, sem nenhum valor de exame
Os dois exames que alimentam o índice já costumam estar no laudo de rotina. O que muda é a leitura conjunta, que expõe o que nenhuma das duas linhas denuncia sozinha.

Existe também uma vantagem prática que costuma passar despercebida. Como o índice usa exames de rotina, ele pode ser calculado sobre coletas antigas, desde que os dois valores venham da mesma amostra e com o jejum respeitado. Isso permite comparar o mesmo indicador em momentos diferentes da vida da pessoa, com material que já foi coletado e pago, sem pedir nada de novo.

A contrapartida dessa facilidade é que o índice herda a fragilidade dos exames que o alimentam. Os triglicerídeos respondem ao que foi comido nas horas anteriores e ao álcool ingerido nos dias que antecedem a coleta, e a glicose de jejum depende de o jejum ter sido de fato cumprido. Um índice TyG calculado sobre uma coleta mal padronizada descreve a véspera da pessoa, e não o metabolismo dela.

O que os dois estudos mostram, e eles não chegaram à mesma conclusão

A validação de um índice como esse é feita contra o clamp, um procedimento de pesquisa em que insulina e glicose são infundidas por via venosa sob controle rigoroso, para medir diretamente quanta glicose o organismo consegue captar. O clamp é o método de referência para avaliar sensibilidade à insulina e é inviável fora da pesquisa, o que faz dele o juiz natural de qualquer fórmula que se proponha a aproximá-lo. Dois trabalhos fizeram esse teste com o índice TyG e chegaram a leituras diferentes, e a divergência entre eles é parte do que se sabe hoje sobre o marcador.

O primeiro é brasileiro. Comparando o índice com o HOMA, o método clássico que usa a insulina na fórmula, os autores encontraram desempenho superior do índice calculado a partir dos triglicerídeos e da glicose naquela população. O número se correlacionou com medidas de adiposidade e com marcadores metabólicos e de aterosclerose ligados à resistência à insulina, com grau moderado de concordância com o clamp, e o trabalho o descreve como ferramenta acessível para a prática clínica (Vasques e cols., 2011).

O segundo foi conduzido com 163 mulheres na pós-menopausa, todas sem diabetes, também submetidas ao clamp, no caso o hiperinsulinêmico euglicêmico. Ali o índice TyG se correlacionou com o padrão de referência, porém de forma apenas modesta, e os índices que incluem a insulina na fórmula saíram mais precisos que ele. A conclusão dos autores é reservada e literal, o índice precisa ser testado e validado em mais populações antes de um uso clínico em larga escala (Bastard e cols., 2012).

Os dois achados não se anulam, e nenhum deles pode ser apresentado sozinho como a posição consolidada da área. Eles descrevem populações distintas, uma amostra brasileira de composição mista e um grupo específico de mulheres depois da menopausa, e é plausível que o desempenho de uma fórmula ancorada em lipídios varie justamente com o perfil hormonal e com a distribuição de gordura de quem está sendo medido. O que sobra desse confronto é uma leitura intermediária, a de que o índice é barato, sai de exame que a pessoa já fez e funciona como sinal de alerta, sem ocupar o lugar do método de referência. Ele levanta a suspeita de resistência à insulina, e não a mede.

O que o índice não faz

A primeira coisa que ele não é, é diagnóstico. Um número calculado a partir de dois exames aponta uma direção de investigação, e a decisão sobre o que aquilo significa naquela pessoa depende da história clínica, do exame físico e dos demais resultados, e cabe ao médico que acompanha o caso. A mesma cautela vale para outros marcadores que sinalizam sobrecarga metabólica sem fechar nada sozinhos, como o ácido úrico alto.

A segunda é que ele não deve virar alvo. Transformar um índice de suspeita em número a ser perseguido inverte a função dele, porque o que interessa clinicamente é o processo por trás dos dois exames, e não a casa decimal que a fórmula devolve. Um resultado que se desloca de um ano para o outro pede que se pergunte o que mudou na alimentação, no peso, no sono e na atividade física daquela pessoa, e essa pergunta é conduzida em consulta.

A terceira é que o índice TyG não enxerga o que o exame físico enxerga. Ele depende de dois valores de laboratório, e existem sinais de resistência à insulina que aparecem no corpo antes de qualquer laudo apontar alguma coisa.

O que o exame clínico mostra antes de qualquer conta

Circunferência abdominal aumentada e acantose nigricans, o escurecimento aveludado da pele nas dobras do pescoço, das axilas e da região dos cotovelos, são achados que o médico procura no exame físico e que, quando estão presentes, indicam resistência à insulina mesmo que a insulina dosada no laudo tenha voltado baixa. Nesse cenário o índice não acrescenta o diagnóstico, ele acrescenta uma medida objetiva para acompanhar ao longo do tempo aquilo que o exame físico já mostrou.

A relação também corre no sentido inverso, e esse caso é comum. Alguém sem alteração visível na pele, com peso considerado adequado e com todos os exames dentro das faixas impressas, pode ter uma combinação de triglicerídeos e glicose que chame atenção quando os dois são lidos juntos. É nesse tipo de laudo silencioso que um índice calculado rende mais, porque ele reorganiza informação que já estava ali e que nenhum dos dois valores, sozinho, justificaria olhar duas vezes. A resistência à insulina como raiz de um quadro que se apresenta por outra queixa é o mesmo mecanismo discutido no artigo sobre o que os exames enxergam na síndrome dos ovários policísticos.

Onde ele entra na leitura de um laudo

O índice TyG ocupa um lugar modesto e útil. Ele não pede coleta nova, não depende de exame caro e não resolve a controvérsia sobre como medir resistência à insulina fora de um laboratório de pesquisa. O que ele faz é pegar dois resultados que quase sempre já existem, e que costumam ser lidos separadamente e esquecidos, para apontar em qual direção olhar. Um trabalho brasileiro o encontrou melhor que o método clássico, outro, com mulheres na pós-menopausa, o encontrou apenas modesto, e a distância entre esses dois resultados é o tamanho real do que se pode afirmar hoje sobre ele. O número entra na conversa como mais um elemento do quadro, e a leitura dele é feita pelo médico, com a história, o exame físico e o restante dos exames na mesma mesa.

Perguntas frequentes

O que é o índice TyG?

É um índice calculado a partir de dois exames comuns, os triglicerídeos e a glicose de jejum, usado para levantar suspeita de resistência à insulina. Ele não é um exame novo e não exige coleta adicional, porque parte de resultados que a maioria dos adultos já tem no laudo. A sigla vem das iniciais em inglês de triglicerídeos e glicose.

Como se calcula o índice TyG?

O cálculo combina os triglicerídeos e a glicose de jejum por uma fórmula logarítmica, ou seja, não é uma conta que se faça de cabeça nem uma divisão simples entre os dois valores. O cálculo em si é a parte trivial, e o que dá sentido ao número é a leitura dele junto com o exame clínico e com o restante do laudo, feita pelo médico que acompanha a pessoa.

Preciso fazer um exame novo para calcular o índice TyG?

Não. O índice usa triglicerídeos e glicose de jejum, dois exames que costumam estar em qualquer perfil de rotina. Se o laudo tiver os dois medidos na mesma coleta e com o jejum respeitado, o cálculo pode ser feito sobre exames já existentes, inclusive sobre coletas anteriores, o que permite comparar momentos diferentes.

O índice TyG é melhor que o HOMA?

Os estudos não dão a mesma resposta. Um trabalho brasileiro que comparou os dois contra o método de referência encontrou desempenho superior do índice TyG naquela população. Outro, com mulheres na pós-menopausa, encontrou correlação apenas modesta e concluiu que os índices que incluem a insulina na fórmula foram mais precisos. A comparação depende da população estudada e ainda não está resolvida.

O índice TyG dá o diagnóstico de resistência à insulina?

Não. O índice levanta suspeita e indica que aquele metabolismo merece ser olhado com mais atenção, e o diagnóstico continua sendo clínico. Uma pessoa pode ter resistência à insulina evidente ao exame físico com um resultado de insulina baixo no laudo, e o contrário também acontece. Quem interpreta o número é o médico, com a história e o quadro inteiro.

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Referências científicas

  1. Vasques ACJ, Novaes FS, de Oliveira MS, et al. TyG index performs better than HOMA in a Brazilian population: a hyperglycemic clamp validated study. Diabetes Res Clin Pract, 2011. PMID 21665314 · DOI
  2. Bastard JP, Lavoie ME, Messier V, Prud'homme D, Rabasa-Lhoret R. Evaluation of two new surrogate indices including parameters not using insulin to assess insulin sensitivity/resistance in non-diabetic postmenopausal women: a MONET group study. Diabetes Metab, 2012. PMID 22405724 · DOI
Dr. Renato Susin
Dr. Renato Susin
Médico nutrólogo
CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473

Médico nutrólogo com foco em metabolômica clínica e medicina funcional integrativa. Escreve traduzindo evidência em raciocínio de consultório.

Conteúdo educativo e informativo, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Não substitui consulta, diagnóstico, prescrição nem tratamento médico individual. A metabolômica é apresentada como exame complementar, que soma aos exames convencionais. Dr. Renato Susin, médico nutrólogo. CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473.

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