Metabolômica

Vitamina B6: o ácido xanturênico como marcador funcional

A dosagem de vitamina B6 no sangue costuma vir dentro da faixa mesmo quando a enzima que depende dela está lenta. O ácido xanturênico na urina mostra a outra metade dessa história.

Passagem do sinal entre duas células nervosas, com partículas luminosas atravessando o espaço entre elas e chegando aos receptores do outro lado
Ouça: por que dosar a B6 uma vez só responde pouco?
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A vitamina B6 raramente é dosada mais de uma vez. Solicita-se o exame, o resultado volta dentro da faixa de referência, e a hipótese costuma ser descartada nesse ponto.

Ocorre que a quantidade circulante no sangue e o trabalho que a vitamina realiza dentro da célula não são a mesma medida. As duas divergem com frequência, e existe um metabólito urinário que registra essa divergência.

Esta é mais uma peça da série sobre os marcadores funcionais do complexo B, cujo princípio geral está em o que a dosagem da vitamina não consegue ver. Aqui o assunto é uma vitamina só.

O que chega no prato ainda não é a vitamina que trabalha

O que chega da alimentação são três formas parecidas, a piridoxina, o piridoxal e a piridoxamina. Nenhuma delas participa de reação nenhuma como veio. Todas precisam ser convertidas na forma ativa, o piridoxal 5-fosfato, e é essa forma ativa que se encaixa nas enzimas.

E são muitas enzimas. O piridoxal 5-fosfato é cofator da transaminação dos aminoácidos, que é a etapa em que o corpo remaneja o nitrogênio de um aminoácido para outro. Ele participa da síntese de neurotransmissores. Ele é necessário para converter a homocisteína em cisteína, que é o caminho que termina na glutationa. E ele é necessário para que o triptofano da alimentação possa gerar niacina, que é a vitamina B3.

Há um detalhe com consequência prática nessa etapa. A conversão das formas alimentares no piridoxal 5-fosfato depende da vitamina B2, de modo que uma insuficiência de riboflavina pode se manifestar como um problema de vitamina B6. As vitaminas do complexo B são interdependentes, e é por isso que avaliar uma delas isoladamente das demais raramente responde à pergunta clínica.

Por que a dosagem no sangue costuma vir dentro da faixa

O valor circulante responde a uma pergunta legítima, que é quanto da vitamina existe no sangue naquele momento. O que ele não responde é quanto dela está sendo efetivamente usado pelas enzimas dentro do tecido.

Essas duas respostas costumam ser concordantes, e quando são, a dosagem convencional basta. Quando se separam, o que acontece com alguma frequência no caso da vitamina B6, a dosagem no sangue é a que tende a apontar normalidade. Ela simplesmente não reflete o nível dentro do tecido, e é essa a razão pela qual, na leitura funcional, o marcador urinário passou a ser preferido. Ela devolve um valor dentro da faixa, ou por vezes elevado, enquanto a reação dependente da vitamina permanece lenta. O marcador funcional existe para cobrir essa lacuna.

A via do triptofano, onde a B6 deixa a pista

O triptofano é um aminoácido essencial, ou seja, só entra no organismo pela alimentação. Dentro do corpo, ele tem mais de um destino possível.

O destino mais divulgado é a serotonina, que responde por uma fração pequena do total. Cerca de noventa por cento do triptofano segue por outro caminho, a via da quinurenina, que metaboliza o excesso e termina, no fígado, em uma das formas da vitamina B3. É por esse motivo que uma ingestão proteica adequada reduz a necessidade de niacina vinda diretamente da dieta.

No meio dessa via está a enzima que interessa a este texto, a quinureninase, que depende do piridoxal 5-fosfato. Vale registrar que a falta de B6 também eleva o ácido quinurênico, outro metabólito da mesma via, e que esse marcador tem uma particularidade: quando ele aparece baixo, a leitura muda de vitamina e passa a apontar insuficiência de B3, porque é nela que a via termina. Sem o cofator ela não deixa de funcionar, apenas perde velocidade, exatamente como descrito no artigo que abre esta série. Quando isso acontece, o material se acumula na entrada da reação e uma segunda enzima o converte em ácido xanturênico, um composto estável que é eliminado na urina. É por isso que ele é o marcador mais sensível dessa via, já que o gargalo despeja direto nele.

O ácido xanturênico é, portanto, uma saída lateral da via. Ele não integra o caminho principal, e se forma justamente quando esse caminho principal perde velocidade.

Infográfico da via do triptofano mostrando a etapa que depende da vitamina B6 e a saída lateral que forma o ácido xanturênico na urina
Esquema didático, com só as etapas que interessam a este texto. A via da quinurenina tem bem mais passos e mais ramificações do que o desenho mostra. O triptofano entra, a etapa dependente da vitamina B6 perde velocidade, o material se acumula logo antes dela e escapa pela saída lateral. O ácido xanturênico que o exame encontra na urina é essa escapada, e não um produto do caminho principal.

Numa obra de estrada acontece a mesma coisa. A pista não foi fechada, ela ficou mais estreita, e o trânsito passa mais devagar. Os carros então começam a escapar por uma rua lateral que antes quase ninguém usava. Contar os carros nessa rua lateral é uma forma indireta, e bastante confiável, de descobrir que a pista principal está lenta.

Rua lateral sinalizada como desvio, com trânsito escapando de uma pista principal estreitada por obra
A pista principal continua aberta, só que mais lenta, e é a rua lateral que denuncia isso. A quantidade de ácido xanturênico na urina cumpre o mesmo papel, porque ela cresce na proporção em que a reação dependente da vitamina B6 perde velocidade.

Por que essa via aparece em pesquisa sobre humor

Vários metabólitos formados na via da quinurenina têm ação sobre o sistema nervoso central, e é por isso que essa via aparece com frequência em pesquisas sobre humor, cognição e inflamação.

Um metabólito medido na urina não explica um transtorno psiquiátrico nem trata qualquer um deles. Depressão e ansiedade são diagnósticos clínicos, estabelecidos por critérios definidos e por avaliação de uma pessoa por outra, e nada disso é substituível por um exame. A via da quinurenina é um componente bioquímico que pode integrar o quadro de determinada pessoa, ao lado de todo o restante.

Cinco motivos para esse marcador subir

Um ácido xanturênico elevado aponta cinco causas possíveis, e o número sozinho não fecha nenhuma delas.

A ingestão pode estar insuficiente. É a hipótese mais imediata, e nem sempre a mais frequente.

O consumo pode estar aumentado. A inflamação sistêmica parece acelerar o gasto de vitamina B6, o que ajuda a compreender os casos em que a reposição é feita e o marcador não cede. Nessa situação, insistir na reposição sem tratar a inflamação tende a não resolver.

Pode haver influência hormonal. O estrogênio atua sobre as enzimas que abrem a via do triptofano, e o uso de contraceptivo hormonal vem sendo estudado nesse contexto. Isso não justifica interromper um contraceptivo por conta própria. Justifica que a informação seja levada ao médico que acompanha o caso.

Pode faltar substrato. Ingestão proteica baixa, ou dificuldade de digerir a proteína em aminoácidos, reduz o triptofano disponível e altera simultaneamente todos os marcadores dessa via.

A microbiota intestinal pode estar envolvida. Bactérias do intestino consomem triptofano para produzir outros compostos, e metabólitos de origem bacteriana influenciam a enzima que abre a via. Um desequilíbrio intestinal pode, portanto, se expressar no marcador de uma vitamina.

Alimentos fontes de vitamina B6 sobre bancada clara, entre eles peixe, grão de bico, banana e batata
Fontes alimentares de vitamina B6. A foto marca um ponto do texto: a alimentação adequada responde apenas à primeira das cinco causas listadas acima. Inflamação, influência hormonal, digestão da proteína e microbiota atuam em etapas posteriores à ingestão.

O que a reposição corrige, e o que ela não corrige

Dois trabalhos delimitam este raciocínio a partir de perguntas distintas. O primeiro estabelece a diferença entre medir a vitamina e medir a atividade das enzimas que dependem dela. O segundo demonstra até onde essa medida vai.

Referência da revisão sobre biomarcadores diretos e funcionais da vitamina B6, com título, autores, revista e DOI
Numa revisão sobre como se avalia a vitamina B6, os autores separam o marcador direto, que é a forma ativa circulante, dos marcadores funcionais, que leem a atividade das enzimas dependentes dela na via do triptofano. O ácido xanturênico e as razões entre metabólitos dessa via estão entre esses marcadores funcionais, e os autores recomendam combinar as duas categorias, porque inflamação, função renal e albumina baixa interferem na leitura isolada.
Referência do estudo de reposição de piridoxina em adultos com artrite reumatoide, com título, autores, revista e DOI
Num ensaio duplo-cego controlado por placebo, adultos com artrite reumatoide receberam 50 mg de piridoxina por dia durante 30 dias. A reposição corrigiu a deficiência de vitamina B6 medida no exame, inclusive a excreção urinária do ácido xanturênico, e não alterou a produção das citocinas inflamatórias avaliadas. Corrigir o marcador não foi o mesmo que tratar a doença de base.

O segundo trabalho delimita com precisão o alcance de normalizar um marcador funcional. A vitamina é reposta e a enzima volta a trabalhar na velocidade esperada, ao passo que a doença responsável pelo consumo aumentado continua exigindo o próprio tratamento. Corrigir o marcador e tratar a causa são objetivos distintos.

Como isso muda o exame que se pede

Muda o exame que se pede. Quando a suspeita é de insuficiência de vitamina B6, a dosagem no sangue isoladamente responde pouco. O marcador funcional na urina acrescenta a informação que falta, e as duas leituras em conjunto valem mais do que qualquer uma delas separada.

Muda a pergunta seguinte. Um ácido xanturênico elevado não estabelece a falta de vitamina B6 e não encerra o assunto. Ele indica que a via está lenta e exige que se investigue por quê, entre as cinco causas listadas acima, o que é o inverso de iniciar reposição de imediato.

Muda o acompanhamento posterior. Se a via estava lenta por consumo aumentado, o marcador só cede quando a causa desse consumo for tratada. Repetir o exame passa então a ter função definida, porque ele responde se a via foi de fato corrigida.

Os limites do ácido xanturênico

Entre o ácido xanturênico e a dosagem de vitamina B6 no sangue não há um exame melhor e outro pior, há duas perguntas diferentes. Uma delas é quanta vitamina existe circulando. A outra é quanto dessa vitamina chega a entrar nas reações.

O marcador não fecha diagnóstico isoladamente, não converte resultado em prescrição e não define dose. Um valor alterado é o início de uma investigação, e sua leitura só faz sentido dentro do contexto clínico de quem realizou o exame.

O raciocínio descrito aqui se repete, com marcadores próprios, nas demais vitaminas do complexo B, e é disso que tratam os outros artigos desta série.

Perguntas frequentes

O que é o ácido xanturênico?

É um metabólito que se forma na via do triptofano e sai na urina. Ele aparece em maior quantidade quando uma enzima que depende da forma ativa da vitamina B6 passa a trabalhar devagar, e o material que ela deveria consumir encontra uma saída lateral. Por isso ele é tratado como marcador funcional da vitamina B6, ou seja, um marcador que mostra o trabalho da vitamina, e não a quantidade dela.

Minha vitamina B6 no sangue deu normal. Ainda pode faltar?

Pode. A dosagem no sangue mede o que está circulando naquele momento, e esse valor nem sempre acompanha o quanto da vitamina está entrando nas reações dentro da célula. É por isso que existem pessoas com a dosagem dentro da faixa do laboratório e com o marcador funcional alterado. As duas medidas respondem a perguntas diferentes e a leitura depende do contexto clínico.

Ácido xanturênico alto quer dizer que eu preciso tomar vitamina B6?

Não por si só. O mesmo marcador pode subir por ingestão insuficiente da vitamina, por consumo aumentado durante inflamação, por influência hormonal sobre as enzimas da via, por pouca proteína chegando quebrada em aminoácidos ou por competição com a microbiota intestinal pelo triptofano. Cada uma dessas causas pede uma conduta diferente, e a conduta nasce do conjunto do caso, nunca de um número isolado.

Qual exame mede o ácido xanturênico?

O perfil de ácidos orgânicos na urina, analisado por espectrometria de massa acoplada à cromatografia. É o mesmo exame que traz os marcadores do ciclo de energia da célula, os metabólitos produzidos pela microbiota intestinal e os marcadores funcionais das outras vitaminas do complexo B.

Esse marcador tem relação com depressão ou ansiedade?

A via do triptofano é bastante estudada em pesquisa de humor e de cognição, porque alguns metabólitos dela agem no sistema nervoso. Isso explica o interesse científico e não autoriza nenhuma conclusão sobre uma pessoa. Depressão e ansiedade são diagnósticos clínicos, com critérios que nenhum exame de urina cobre, e nenhum marcador metabólico diagnostica ou trata um transtorno psiquiátrico.

Metabolômica na prática clínica

Veja como funciona a consulta de nutrologia guiada por metabolômica com o Dr. Renato Susin, médico nutrólogo.

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Referências científicas

  1. Ueland PM, Ulvik A, Rios-Avila L, Midttun Ø, Gregory JF 3rd. Direct and Functional Biomarkers of Vitamin B6 Status. Annu Rev Nutr, 2015. PMID 25974692 · DOI
  2. Chiang EP, Selhub J, Bagley PJ, Dallal G, Roubenoff R. Pyridoxine supplementation corrects vitamin B6 deficiency but does not improve inflammation in patients with rheumatoid arthritis. Arthritis Res Ther, 2005. PMID 16277693 · DOI
Dr. Renato Susin
Dr. Renato Susin
Médico nutrólogo
CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473

Médico nutrólogo com foco em metabolômica clínica e medicina funcional integrativa. Escreve traduzindo evidência em raciocínio de consultório.

Conteúdo educativo e informativo, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Não substitui consulta, diagnóstico, prescrição nem tratamento médico individual. A metabolômica é apresentada como exame complementar, que soma aos exames convencionais. Dr. Renato Susin, médico nutrólogo. CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473.