Metabolômica

Antioxidante para todo mundo: por que essa conta não fecha

Um ensaio com 18.314 pessoas foi interrompido porque o suplemento antioxidante aumentou o câncer de pulmão. Entenda a hormese mitocondrial e por que o alvo é prevenir dano, não abolir o estresse oxidativo.

Chama pequena e estável de queimador de laboratório em ambiente escuro, com o cone azul nítido no centro
Ouça: antioxidante é para todo mundo?
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A ideia é simples e por isso circula bem: radicais livres danificam as células, antioxidantes neutralizam radicais livres, logo mais antioxidante significa mais proteção. Ela sustenta uma parte considerável do mercado de suplementos e aparece com frequência em recomendações genéricas de prevenção.

O problema é que, quando essa hipótese foi levada a teste em grande escala, o resultado não acompanhou o raciocínio. Em alguns casos ele foi na direção contrária, e um desses estudos precisou ser interrompido antes do prazo.

O que o ensaio interrompido mostrou

Entre o fim dos anos 1980 e meados dos anos 1990, um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo acompanhou 18.314 pessoas, todas em risco elevado de câncer de pulmão: fumantes, ex-fumantes e trabalhadores expostos ao asbesto. O grupo de intervenção recebeu 30 mg de betacaroteno e 25.000 UI de vitamina A por dia.

Ao longo de 73.135 pessoas-ano de acompanhamento, com média de quatro anos por participante, foram diagnosticados 388 casos novos de câncer de pulmão. O grupo que recebeu os suplementos apresentou risco relativo de 1,28 em relação ao placebo, com intervalo de confiança de 1,04 a 1,57, o que significa cerca de 28% mais casos. O risco relativo de morte por câncer de pulmão foi de 1,46 e o de morte por qualquer causa foi de 1,17, e diante desses números o estudo foi encerrado 21 meses antes do planejado.

Convém dizer com precisão o que esses números significam e o que eles não significam. Trata-se de duas substâncias específicas, em doses altas, numa população de risco muito elevado. Não é um resultado sobre alimentos ricos em carotenoides e não se estende automaticamente a qualquer antioxidante. Ainda assim, ele desmonta a premissa de que suplementar antioxidante é, na pior das hipóteses, inofensivo.

Infográfico com a curva da hormese, mostrando benefício em doses baixas de estresse oxidativo e prejuízo tanto no excesso quanto na ausência
Esquema didático da curva descrita pela hormese. As duas extremidades são desfavoráveis: excesso de estresse oxidativo produz dano, e ausência dele remove um sinal de que o organismo depende. O eixo horizontal representa intensidade do estímulo, não dose de suplemento.

O sinal que o excesso de proteção apaga

A explicação que a pesquisa básica oferece para esse tipo de resultado tem nome: hormese mitocondrial.

Um experimento com o nematódeo Caenorhabditis elegans, publicado em 2007, é a demonstração mais citada do conceito. A restrição de glicose prolongou a vida dos animais, e o mecanismo identificado foi contraintuitivo: ela induziu a respiração mitocondrial, o que aumentou a formação de espécies reativas de oxigênio. Esse aumento elevou a atividade da catalase, uma enzima antioxidante do próprio organismo, e melhorou a resistência ao estresse oxidativo.

O passo decisivo do experimento veio depois. Quando os animais foram tratados com antioxidantes e vitaminas, o ganho de longevidade desapareceu.

A leitura que isso sugere é que uma quantidade pequena de estresse oxidativo funciona como sinal. Ela avisa a célula de que é hora de acionar as próprias defesas, e essa resposta endógena parece ser mais relevante do que o antioxidante ofertado de fora. Abolir o sinal remove também a resposta.

Detector de fumaça no teto de um ambiente claro, visto de baixo, com a luz indicadora acesa
O alarme não é o incêndio, é o aviso de que existe fogo. Desligar o alarme para deixar o ambiente mais silencioso não torna a casa mais segura. É essa a diferença entre reduzir o dano oxidativo e apagar o sinal que dispara a defesa.

O experimento que mostrou o mecanismo

Um trabalho publicado em 2014 em uma revista de medicina translacional testou diretamente essa hipótese em modelos animais de câncer.

Camundongos geneticamente predispostos a câncer de pulmão receberam N-acetilcisteína ou vitamina E na dieta. Nos dois grupos a progressão tumoral aumentou de forma marcada e a sobrevida caiu. O mecanismo identificado foi coerente: os antioxidantes reduziram as espécies reativas de oxigênio, reduziram o dano ao DNA e reduziram a expressão da p53, que é a proteína encarregada de conter a proliferação de células com dano genético. Quando a p53 foi inativada experimentalmente, o efeito dos antioxidantes desapareceu, o que sustenta que era mesmo por esse eixo que eles agiam.

É um estudo em camundongos, e isso precisa ser dito antes de qualquer conclusão. O que ele acrescenta não é a prova em humanos, e sim um mecanismo plausível para o achado do ensaio clínico descrito acima, o que torna os dois resultados mais difíceis de descartar como coincidência.

O que a literatura sustenta

Referência do estudo sobre restrição de glicose, respiração mitocondrial e extensão da vida em Caenorhabditis elegans, com título, autores, revista e DOI
Estudo experimental em nematódeos, e a origem do termo hormese mitocondrial. A restrição de glicose induziu respiração mitocondrial, aumentou espécies reativas de oxigênio e prolongou a vida dos animais. O tratamento com antioxidantes e vitaminas impediu esse ganho.
Referência do ensaio clínico randomizado sobre betacaroteno e vitamina A no câncer de pulmão e na doença cardiovascular, com título, autores, revista e DOI
Ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo com 18.314 fumantes, ex-fumantes e expostos ao asbesto. O grupo que recebeu betacaroteno com vitamina A teve risco 28% maior de câncer de pulmão, e o estudo foi encerrado 21 meses antes do previsto.

Os dois trabalhos têm naturezas diferentes e se complementam justamente por isso. O primeiro é experimental, em um organismo simples, e mostra mecanismo com clareza que nenhum estudo humano alcançaria. O segundo é um ensaio clínico grande, com desfecho duro e grupo placebo, e é o que dá peso à discussão em pessoas.

O que isso muda na prática clínica

Muda a diferença entre alimento e suplemento. Frutas, hortaliças, azeite, chá e café trazem compostos antioxidantes em quantidades e combinações que nenhuma cápsula reproduz, e nenhum dos estudos discutidos aqui recomenda reduzir esses alimentos. O que está em questão é a substância isolada, em dose alta, tomada por tempo indeterminado sem indicação.

Muda o objetivo do tratamento. A conclusão que a literatura sustenta é mais precisa do que a versão simplificada: o alvo é prevenir dano oxidativo, não abolir o estresse oxidativo. São coisas diferentes, e a segunda não é desejável.

Muda quem se beneficia. Existem situações clínicas com indicação estabelecida para antioxidantes específicos, em doses e prazos definidos. Elas não se confundem com a suplementação preventiva para pessoas saudáveis, que é o uso mais comum e o menos sustentado.

E muda quem não deve usar. Durante a quimioterapia, a suplementação antioxidante pode interferir na ação do tratamento, e essa decisão pertence a quem conduz o caso oncológico. Em fumantes, a cautela vem dos próprios dados citados aqui. São as duas situações em que a pergunta deixa de ser se ajuda e passa a ser se atrapalha.

Muda o valor de medir antes. Existem marcadores que descrevem o estado oxidativo, entre eles o 8-hidroxi-2-desoxiguanosina urinário, que reflete dano oxidativo ao DNA, e os marcadores do sistema da glutationa. Eles não convertem resultado em prescrição, e permitem sair do território da suposição, que é onde a maior parte dessas decisões é tomada hoje. Vale notar que esse tipo de marcador serve tanto para indicar quanto para desaconselhar, já que um resultado dentro da faixa, em quem fuma, é argumento a favor de segurar o antioxidante e não de liberá-lo.

O limite deste artigo

Nada aqui sustenta que antioxidantes sejam perigosos em geral, e esse é um resumo que este texto não autoriza. O que os dados sustentam é mais restrito e mais útil: a suplementação antioxidante indiscriminada não é neutra, e o pressuposto de que ela só pode ajudar já foi testado e falhou em populações específicas.

Quem usa algum antioxidante por indicação médica deve conversar com quem prescreveu antes de qualquer mudança. Interromper tratamento por conta própria, a partir de um texto, é o tipo de decisão que este artigo não propõe.

O ponto que fica é de método. Uma via metabólica que existe para produzir energia gera espécies reativas como parte do funcionamento normal, e o organismo tem defesas próprias para lidar com isso. Entender onde essa regulação está funcionando e onde ela não está exige medir, e é o mesmo raciocínio que se aplica ao ciclo de energia da célula e aos marcadores funcionais das vitaminas.

Perguntas frequentes

Antioxidante faz mal?

A questão não é a substância, é a dose e o contexto. Antioxidantes vindos dos alimentos, dentro de um padrão alimentar variado, não são o objeto dessa discussão. O que os estudos questionam é a suplementação em doses altas, prolongada e sem indicação, particularmente em populações específicas. A distinção entre alimento e suplemento isolado é central aqui.

O que é hormese mitocondrial?

É o conceito de que uma quantidade pequena de estresse oxidativo funciona como sinal e ativa as defesas antioxidantes do próprio organismo, resultando em maior resistência a estresses posteriores. A palavra descreve a curva em que uma dose baixa de um estímulo produz efeito oposto ao de uma dose alta.

Por que o ensaio com betacaroteno foi interrompido?

O Beta-Carotene and Retinol Efficacy Trial acompanhou 18.314 fumantes, ex-fumantes e trabalhadores expostos a asbesto. O grupo que recebeu betacaroteno com vitamina A apresentou risco de câncer de pulmão 28% maior que o grupo placebo, além de maior mortalidade. O estudo foi encerrado 21 meses antes do previsto.

Devo parar de tomar o antioxidante que uso?

Essa decisão é de quem acompanha o seu caso, e não de um texto. Existem situações clínicas com indicação estabelecida para antioxidantes específicos, e existem usos por conta própria que não têm essa base. O que este artigo sustenta é que a suplementação preventiva indiscriminada não é uma escolha neutra.

Como se avalia estresse oxidativo em exame?

Existem marcadores para isso, entre eles o 8-hidroxi-2-desoxiguanosina urinário, que reflete dano oxidativo ao DNA, e marcadores do sistema da glutationa. Eles descrevem o estado oxidativo naquele momento e não convertem o resultado em prescrição, porque a decisão depende do quadro clínico completo.

Metabolômica na prática clínica

Veja como funciona a consulta de nutrologia guiada por metabolômica com o Dr. Renato Susin, médico nutrólogo.

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Referências científicas

  1. Schulz TJ, Zarse K, Voigt A, Urban N, Birringer M, Ristow M. Glucose restriction extends Caenorhabditis elegans life span by inducing mitochondrial respiration and increasing oxidative stress. Cell Metab, 2007. PMID 17908557 · DOI
  2. Omenn GS, Goodman GE, Thornquist MD, et al. Effects of a combination of beta carotene and vitamin A on lung cancer and cardiovascular disease. N Engl J Med, 1996. PMID 8602180 · DOI
  3. Sayin VI, Ibrahim MX, Larsson E, Nilsson JA, Lindahl P, Bergo MO. Antioxidants accelerate lung cancer progression in mice. Sci Transl Med, 2014. PMID 24477002 · DOI
Dr. Renato Susin
Dr. Renato Susin
Médico nutrólogo
CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473

Médico nutrólogo com foco em metabolômica clínica e medicina funcional integrativa. Escreve traduzindo evidência em raciocínio de consultório.

Conteúdo educativo e informativo, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Não substitui consulta, diagnóstico, prescrição nem tratamento médico individual. A metabolômica é apresentada como exame complementar, que soma aos exames convencionais. Dr. Renato Susin, médico nutrólogo. CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473.