Metabolômica

Exame de metabolômica é no sangue ou na urina?

A metabolômica não é só exame de urina. Entenda por que ela pode ser feita no sangue, na urina e até no líquor, e como o médico escolhe a matriz certa.

Ilustração 3D de um pote de urina e um tubo de coleta de sangue com moléculas em tons de jade
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Uma dúvida comum de quem vai fazer metabolômica pela primeira vez é simples e direta. Esse exame é de urina ou de sangue? A resposta curta é que não é só urina. A metabolômica pode ser feita em vários fluidos do corpo, e a escolha de qual usar é uma decisão técnica, que depende do que o médico precisa enxergar em cada caso.

Vale entender o porquê, porque essa escolha muda o que o exame consegue mostrar. Cada fluido carrega um conjunto próprio de metabólitos, e ler o fluido certo para a pergunta clínica certa é parte do que faz a metabolômica ser útil.

A metabolômica não é só exame de urina

Metabólitos são as pequenas moléculas que o metabolismo produz o tempo todo, e elas não ficam presas em um único lugar. Circulam pelo corpo e aparecem em praticamente qualquer material biológico que se colete. Por isso a análise metabolômica pode ser feita a partir de urina, sangue (soro ou plasma), saliva, fezes e até líquido cefalorraquídeo, o líquor que banha o sistema nervoso central.

Há uma forma útil de organizar essa ideia. Alguns fluidos são ricos em células e refletem o funcionamento interno do organismo, como o sangue e o plasma. Outros são materiais que o corpo elimina, como a urina, a saliva e a água fecal, e funcionam como uma pegada do que já foi metabolizado. Cada um conta uma parte diferente da história, e nenhum deles é, sozinho, o exame “certo”.

Infográfico mostrando os biofluidos usados na metabolômica e quando cada um é indicado

Por que a urina é a mais usada no consultório

Na prática clínica, a urina costuma ser o material preferido, e há bons motivos para isso. A coleta é simples e não invasiva, rende um bom volume, e o material é quimicamente rico, cheio de intermediários das vias metabólicas. O mapeamento detalhado do metaboloma urinário identificou centenas de metabólitos e catalogou milhares de compostos descritos na literatura, o que ajudou a transformar a urina em um material de referência para esse tipo de análise (Bouatra e cols., 2013).

A primeira urina da manhã tem uma vantagem extra. Ela concentra uma grande variedade de subprodutos do metabolismo e não sofre a interferência de um esforço físico recente, o que dá uma leitura mais estável do funcionamento de base.

Cartão de referência do estudo que mapeou o metaboloma da urina humana

Estudo citado: Bouatra S. e cols. PLoS One, 2013. DOI

Quando o sangue diz mais

Ainda assim, a urina não responde tudo. Alguns metabólitos são mais bem avaliados no sangue, porque circulam e nem sempre se refletem bem no que é excretado. O soro e o plasma têm, inclusive, um metaboloma ainda mais extenso já catalogado do que a urina, o que derruba de vez a ideia de que metabolômica é apenas exame de xixi (Psychogios e cols., 2011).

O sangue também é preferido em situações específicas. Na avaliação de um atleta durante e após o esforço, por exemplo, a análise sérica captura melhor aquele momento metabólico do que a urina. A regra prática é que a matriz acompanha a pergunta clínica, e não o contrário.

Cartão de referência do estudo que caracterizou o metaboloma do soro humano

Estudo citado: Psychogios N. e cols. PLoS One, 2011. DOI

O líquor, a leitura mais próxima do cérebro

Há ainda uma matriz mais profunda e menos comum, o líquor. Como ele banha diretamente o sistema nervoso central, reflete de forma mais específica o que acontece no cérebro, algo que o sangue nem sempre revela. Não é um exame de rotina, é pouco prático e fica reservado a situações bem definidas, mas ilustra bem por que a escolha da matriz importa.

Um estudo com jovens que tinham depressão resistente ao tratamento mostrou isso de forma marcante. Ao analisar o líquor, os pesquisadores encontraram deficiência de folato cerebral em parte dos casos, com folato normal no sangue e baixo no líquor, e a maioria desses pacientes melhorou ao receber uma forma de folato que o cérebro aproveita melhor (Pan e cols., 2017). Ou seja, o sangue dizia que estava tudo bem, e a resposta só apareceu quando se olhou o fluido certo.

Cartão de referência do estudo sobre alterações metabólicas no líquor na depressão resistente

Estudo citado: Pan L. e cols. Am J Psychiatry, 2017. DOI

Cada fluido tem o seu próprio metaboloma

O ponto que amarra tudo é este. Cada biofluido tem uma composição própria, uma impressão digital metabólica que depende de onde e como a amostra foi colhida, do horário, da dieta e da idade. Não à toa, o esforço científico de mapear o corpo foi feito fluido por fluido, com trabalhos dedicados a caracterizar separadamente o metaboloma do sangue (Psychogios e cols., 2011), da urina (Bouatra e cols., 2013) e do líquor (Wishart e cols., 2008).

Isso tem uma consequência prática direta. Escolher onde medir é uma decisão do médico, feita a partir do que se quer investigar em cada caso. É o mesmo raciocínio que vale para a escolha do painel de metabólitos, um tema que merece um capítulo à parte.

O que isso muda para você

Se você está avaliando fazer uma metabolômica, o resumo é este. Não existe o exame de urina contra o exame de sangue como se um fosse melhor que o outro. Existe a matriz mais adequada para a sua pergunta clínica, que pode ser a urina, o sangue ou, em casos específicos, o líquor. A leitura só ganha sentido quando um médico treinado cruza o resultado com a sua história.

Se você ainda tem dúvida sobre o que exatamente esse exame mede e por que ele enxerga coisas que um exame comum não mostra, vale começar pelo texto base do blog, o que é metabolômica.

Perguntas frequentes

Metabolômica é exame de urina ou de sangue?

Pode ser os dois. A metabolômica é feita a partir de vários fluidos do corpo, principalmente urina e sangue (soro ou plasma), e também saliva, fezes e, em casos específicos, líquido cefalorraquídeo. A urina é a mais usada no consultório por ser fácil de coletar e quimicamente rica, mas o sangue é preferido quando o metabólito de interesse circula e não se reflete bem na urina.

Por que a urina é o material mais usado na metabolômica?

Porque a coleta é não invasiva, rende bom volume e o material é quimicamente rico em intermediários do metabolismo. O metaboloma da urina já foi mapeado em detalhe, com centenas de metabólitos identificados, o que a tornou um material de referência confiável para esse tipo de análise.

Quando é melhor fazer a metabolômica no sangue?

O sangue é preferido quando o metabólito de interesse circula e não é bem representado na urina, e em situações específicas como a avaliação de atletas durante e após o esforço. O metaboloma do soro é, inclusive, ainda mais extenso do que o da urina. A escolha acompanha a pergunta clínica, não o custo do exame.

O que é o exame de metabolômica no líquor?

O líquor é o fluido que banha o sistema nervoso central, então reflete de forma mais específica o que acontece no cérebro. Não é exame de rotina e fica reservado a situações bem definidas, mas pode revelar alterações que o sangue não mostra, como uma deficiência de folato presente no cérebro mesmo com folato normal no sangue.

Existe um fluido melhor que o outro para a metabolômica?

Não. Não existe matriz melhor ou pior de forma absoluta. Existe a mais indicada para cada pergunta clínica. Cada fluido tem um conjunto próprio de metabólitos, e a escolha de onde medir é uma decisão do médico, feita a partir do que se quer investigar.

Metabolômica na prática clínica

Veja como funciona a consulta de nutrologia guiada por metabolômica com o Dr. Renato Susin, médico nutrólogo.

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Referências científicas

  1. Bouatra S, Aziat F, Mandal R, et al. The human urine metabolome. PLoS One, 2013. PMID 24023812 · DOI
  2. Psychogios N, Hau DD, Peng J, et al. The human serum metabolome. PLoS One, 2011. PMID 21359215 · DOI
  3. Wishart DS, Lewis MJ, Morrissey JA, et al. The human cerebrospinal fluid metabolome. J Chromatogr B Analyt Technol Biomed Life Sci, 2008. PMID 18502700 · DOI
  4. Pan LA, Martin P, Zimmer T, et al. Neurometabolic disorders: potentially treatable abnormalities in patients with treatment-refractory depression and suicidal behavior. Am J Psychiatry, 2017. PMID 27523499 · DOI
Dr. Renato Susin
Dr. Renato Susin
Médico nutrólogo
CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473

Médico nutrólogo com foco em metabolômica clínica e medicina funcional integrativa. Escreve traduzindo evidência em raciocínio de consultório.

Conteúdo educativo e informativo, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Não substitui consulta, diagnóstico, prescrição nem tratamento médico individual. A metabolômica é apresentada como exame complementar, que soma aos exames convencionais. Dr. Renato Susin, médico nutrólogo. CRM-SC 22635 · RQE 19766 · RQE 20473.